domingo, 8 de fevereiro de 2015

O rosto


"O rosto é a porta da alma". (Cícero)



Quantas vidas, quantas mortes, quantas alegrias, quantas tristezas. Um rosto marcado pela vida e pelos anos, um rosto com alma. Quantos segredos, quantas palavras, quantos silêncios, quantas lágrimas ou sorrisos conterá este rosto...
Gosto de olhar os rostos de frente, nos olhos, observá-los. Os que me rodeiam, os com que me cruzo, os que conheço e os que nunca vi antes. Tento escrutinar-lhes a alma, interpretar-lhes cada sulco, cada  pedaço de pele, os olhos, a boca. Há rostos onde nada vejo, olhos mortiços, pele sem vida, bocas finas e apertadas, sulcos disfarçados, rostos sem expressão. Esses são um enigma para mim, embora ache que são rostos dissimulados, maquilhados, mascarados. Por alguma razão talvez, são os rostos da indiferença.
Há no entanto rostos que são para mim um livro aberto. Consigo ler-lhes a alma, a essência, a tristeza, a felicidade, a dor, o abandono, a solidão, o sucesso... Um rosto diz-nos tantas coisas. Gosto de olhar os rostos, a porta da alma.



(Nota: Rosto de uma Nazarena desconhecida que captei com a minha objetiva há 3 anos. Este rosto melancólico e resignado fascinou-me...)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Sábado à noite

Ainda me lembro dos sábados à noite de há uns anos, em que chegávamos apressados a casa dos pais para tomar banho e aprontarmo-nos para mais uma saída. A vida era vivida à pressa sempre com medo que o mundo terminasse no dia seguinte e tínhamos de viver a 1000 à hora. Eram os jantares, eram os bares com música ao vivo, eram as discotecas, eram as combinações com os amigos, sempre com horas marcadas, o encontro no café do costume, as noites longas mas que nunca chegavam para tudo o que queríamos fazer. Era a loucura, era a pressa de viver a vida.
Hoje são os nossos filhos que chegam apressados, aprontam-se e saem para mais um sábado à noite.
E lá ficamos nós, os dois.
Chegámos da pedalada e o homem vinha de desejos. O homem, o meu! Sim, é meu, por uso capião, por amor, por amizade, por cumplicidade, por anos e anos de vivência em conjunto onde um diz mata e o outro diz esfola. Sim, do futuro não sei, só sei do passado e do presente e desses sei que as nossas metades fazem um todo, somos cara e coroa, somos unha e carne, somos os dois um só. Nem consigo imaginar a minha vida sem ele, o meu amor, o meu companheiro, a minha muleta, sempre, sempre a surpreender-me.
Mas dizia eu que ele chegou de desejos. Tomou banho e foi às compras...


Salada e polvo e bacalhau assado. Ah! E uma garrafa de vinho, por isso é que estou assim, lamechas...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sexta-feira é dia de confraria

Nem é porque as sextas feiras termina a semana de trabalho ou porque vem aí o fim de semana, ou porque no dia seguinte vou pedalar. Não, eu adoro as sextas porque é dia da Confraria do Pastel de Nata! E hoje o confrade pagante deu mais um tiro no meu colesterol, além do pastel de nata, veio uma variante. Mas ca ganda chatice....


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Não há que temer

Dizem que "quem tem cu, tem medo"... Verdade!
E nem parecem coisas minhas, que me atiro a tudo sem medos, mas desta vez tinha medo...
Nem era da dor, nem do tubo ali às voltas, nem das 24 horas que tinha de passar sem comer, nem da zurrapa que tinha de beber, nem da limpeza da tripa, eu tinha medo era de saber o resultado.
Mas lá sobrevivi ao bicho papão e não há a temer gente, o pior de tudo foi mesmo a preparação e a ansiedade do resultado pois o exame em si, com anestesia, uma picadela no braço, mais uma viagem de maca e não custou nada. Até tive direito a duas velhotas muito queridas como colegas de quarto, sempre a perguntarem pela a menina, eu portanto (imaginem só a idade delas). Agora é só esperar pelo resultado da análise de um pólipo que lá descobriram, mas tenho cá para mim que a minha estrelinha não me vai abandonar.

Nem sei o que é pior

Se é ter de beber litros e litros de uma zurrapa estranha e outros líquidos.
Se é não poder comer
Se é ir ao WC de 5 em 5 minutos
Ou se é saber que logo me vão enfiar um tubo com uma câmara na ponta para me verem as entranhas na televisão por um sítio que eu cá sei,,,,

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Celeuma!

Um dia destes fomos à boa maneira Tuga, os quatro ao shopping às compras. Tão raro momento de confraternização familiar este, que os meus rapazes me proporcionaram, mas adiante, que sendo Tugas de gema acabámos por jantar lá, cada um no seu sítio de eleição juntando-nos numa mesa redonda, a única livre por sinal.
Após tão refinado repasto que foi desde bife, hamburguer gourmet e hamburguer de plástico, rapazes levantaram-se e começaram a bazar dali. Chamei-os para levarem seus tabuleiros para os carrinhos dedicados ao efeito e deixarem a mesa arrumada para os seguintes utilizadores. Pois gerou-se ali uma celeuma (gosto tanto desta palavra) e das grandes.
Eu defendia que seria um ato de civismo e educação deixar tudo limpo e arrumado, contra eles que acham que a culpa do desemprego é minha porque há pessoas contratadas para limpar as mesas e que eu e todos os que o fizermos somos os culpados dessas pessoas deixarem de ter emprego e mais, a mesa nem estava limpa quando nós chegámos lá...
Argumentei e expliquei o meu ponto de vista, isto em pé no meio da zona de restauração e com o tabuleiro na mão. De seguida levei logo com o lixo e com a mania que tenho de reciclar, acabo por tirar empregos às pessoas que escolhem o lixo e com as empregadas de limpeza que não tenho e com os jardineiros pois sou eu que cuido do jardim e varro as folhas e com as costureiras porque sou eu que faço as bainhas e.....
Bom, com tanto desempregado às costas que entretanto tenho tudo a comer cá em casa e tantos pares de olhos postos em nós, fui colocar o tabuleiro no carrinho e pirei-me dali para fora.
Então, o que faço, janto no shopping e deixo tudo conspurcado, pago para me fazerem tudo e mais alguma coisa até ficar uma pelintra e ser uma empregadora ou ser responsável por uns milhares de desempregados??

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Haveria de chegar o dia

Finalmente chegaria o dia em que ele havia crescer e compreender que a vida, além de ser para ser vivida, seria também de humildade, de aprendizagem e de luta. Nesse dia, ele havia de entender que a vida é receber, é ficar à espera, é ser-e o centro do universo, mas também é fazer parte desse mesmo universo, indo, dando, amando, apoiando e colaborando. Quando chegasse esse dia, após anos e anos de revolta e incompreensão por parte do mundo, pensava ele, e  após dezenas de guerras inglórias, o isolamento, o desgosto e  a infelicidade fá-lo-iam descer à terra e enfrentar finalmente uma realidade que julgava não existir. Nesse dia veria tudo com uma clareza tão pura e cristalina, que se tornaria finalmente um homem e se faria a vida e amaria incondicionalmente e compreenderia os que o rodeiam e as suas imperfeições e partiria para a sua luta como todos os outros.
Haveria de chegar esse dia...