Quando inexplicavelmente procuramos as palavras e elas nos fogem, quando vasculhamos bem fundo a ver se as encontramos e não. Corremos atrás delas, remexemos á procura mas não. Definitivamente agora não. Se nuns dias elas saem sem nós querermos, noutros parece que se esfumam por entre o nevoeiro cerrado. Talvez tenha sido no caminho para o trabalho ao atravessar aquela bruma intensa que o sol naquele momento ainda fraco, não conseguia furar. Talvez tenham desertado assustadas com a voracidade do meu pensamento que ganhou asas pelo caminho. Aguardo o andamento da manhã, se eu não mais as procurar, talvez elas vão voltando.
Por agora tenho os olhos. Que os olhos também falam!
domingo, 31 de janeiro de 2016
Os olhos também falam
sábado, 30 de janeiro de 2016
Mindfullness perto do céu
Eu não preciso, basta-me subir a serra, respirar, contemplar, pensar....
Subam o monte, caminhando ou pedalando e vão entendar-me.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Medo
O chapim real
Hoje acordei com mais um ano e um gosto a fim de festa, não que tenha havido festa, mas o gosto está gravado para estes dias e, assim sendo, gostos gravados em certos recantos da memória, já que ocupam espaço, terão de vir á tona de vez em quando para que não ganhem pó, foi hoje.
Eu só queria ficar quieta no meu canto a curtir a ressaca que não tinha e a pensar cá coisas com os meus botões que por acaso até tinha. Vá-se lá entender estas coisas.
A reunião da manhã foi adiada, boa! Deixassem-me trabalhar sossegada.
Quis porém a minha faceta de sem parança, em conjunto com a de protetora de animais que me chamassem para ver um passarito caído a porta da receção. Em voo picado, chocou com o vidro e ali ficou, estendido. As asas abertas, as patas encolhidas, olhitos fechados. Respirava no entanto e peguei nele, fiz festinhas, dei água, soprei, deixei-o descansar.
Depois cagou-me na mão! Nunca se caga na mão de quem nos tenta salvar. Mas apesar de tudo e da mão cagada, eu sou ou não sou uma salvadora?
Fui devolvê-lo á natureza, já que não podia fazer mais nada, além disso, já tinha a mão cagada, não queria que ela tivesse também um pássaro morto.
Meia hora se passou e não me contive, fui ver se tinha conseguido dar às asas e voar. Não. Ainda lá estava, todo enjojado, inchado e de olhos fechados. Ia finar-se certamente.
Fiz-lhe uma festinha e saltou-ne para o braço, olhou para mim, juro que o vi piscar-me o olho, voou!
Um bom presságio, este.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
A todos um bom Natal cheio de Páscoas e muitos Carnavais
A mim
Vivem
em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa



