quarta-feira, 9 de março de 2016

Prisioneira, mas só um pouco

O dia acontece lá fora e eu vejo-o da janela.
Através dos janelões da sala onde trabalho posso vislumbrar o céu, algumas árvores e arbustos e os carros a movimentarem-se na estrada. Absorta no trabalho gosto porém de olhar a janela de quando em vez a ver um pouco do mundo. O céu estava pintado de vários tons de cinza onde nuvens corriam apressadas. A chuva caiu mais uma vez o dia todo deixando rios de água nos vidros distorcendo-me a visão. Ainda mais, já que os meus olhos teimam em não se adaptar á porcaria dos óculos progressivos que já foram diversas vezes arrumados dentro da caixa, mas acabei sempre por nos dar, a eles e a mim, uma nova oportunidade. Esta minha teimosia com tudo ainda me leva á loucura. 
Hoje, na minha janela não se cruzaram passaritos, apenas aviões e pelo dançar constante das árvores parecia-me que estava frio e vento, mas só dei por eles quando saí e alguns pingos me molharam a cara, peguei no carro e parti para a minha segunda vida. A vida depois do trabalho. Aprecio ambas.

terça-feira, 8 de março de 2016

Música para os meus ouvidos

Possuir coisas, coisas e mais coisas, apenas e só pelo prazer de as possuir nem que seja somente para olhar para elas e sentir-se um possuidor de coisas, não acrescentará muito á nossa felicidade. 
Sou no entanto a orgulhosa possuidora de uma coisa que me faz imensamente feliz. Uma variada e extensa lista de músicas que está em constante enriquecimento e que utilizo quando corro ou pedalo sozinha, ou simplesmente quando quero afastar os outros de mim, voluntária ou involuntariamente, já que, assim como ler e escrever, também ouvir música, a nossa música, é um ato solitário de puro deleite, reflexão ou introspeção, pessoal e intransmissível.
Desde o rock "da pesada" ao fado, passando por excertos de música clássica, hip hop, bandas sonoras de filmes, música alternativa, pop rock e muitas lamechices, tem de tudo um pouco a minha lista. Tudo músicas para velhos dizem-me filhos, mas a mim, embalam-me umas, espicaçam-me outras, puxam-me ao sentimento e ao pensamento, chegando até a falar por mim.

Para nós, Mulheres

domingo, 6 de março de 2016

Sou como um rio

De águas aparentes calmas porém cheias de remoinhos interiores.
Os rios que eu encontro vão seguindo comigo..




quarta-feira, 2 de março de 2016

Descobri

Não sei se o que fiz naquele dia foi o tal do running, ou se o que fiz foi corrida, ou caminhada rápida, não sei. Sei que num destes dias não me apetecia ver gente e por isso não fui ao ginásio depois do trabalho, mas em chegada a casa e já me apetecendo ver gente, a minha, ainda não tinha chegado ninguém. Além disso, a casa estava fria e escura e fechada. Troquei de roupa e saí para a rua.

Aqui só há casas e gente que não é a minha e eu afinal já não queria de novo ver gente e quando eu não quero ver gente, não quero e ponto final. Era já noite e comecei por andar rápido e depois encetei uma espécie de corrida. Sem destino. Detesto correr mas estava a sentir-me bem, tão bem que me imaginei o Forrest Gump a percorrer todos aqueles caminhos durante anos, o meu cabelo a crescer e eu a envelhecer correndo, a paisagens a sucederem-se passando apressadas, as cenas a passarem por mim, aliás, eu a passar por elas. E lá fui correndo, acabando por me dirigir a um dos parques da cidade e depois para a cidade.

Os patos aninhavam-se para passar a noite, no estádio e nos parques em volta, crianças treinavam futebol, cruzei-me com um casal com dois cães, dois ou três outros corredores e ultrapassei outros tantos. Cumprimentámo-nos. Os iguais (ou parecidos vá) cumprimentam-se sempre. E fui correndo. As estradas estavam repletas de carros apressados no regresso a casa, nos prédios acendiam-se luzes, sinal de que já tinham gente dentro, algumas chaminés já deitavam fumo e aqueciam pessoas e eu imaginava as rotinas delas, apressadas de uma divisão para a outra, a preparar o jantar, a acender a lareira, a dar banho aos filhos ou a jantar. Imaginei as risadas, as brincadeiras, as conversas á mesa, a troca cúmplice de olhares, os suspiro da descompressão do dia. Corri, corri, corri, nem sei bem quantos quilómetros, mas foram muitos.

Por fim, satisfeita com tudo o que vi correndo, comecei a dirigir-me para casa, também eu e descobri. Afinal correr é tão bom.

terça-feira, 1 de março de 2016

Talvez saudade

Guardo aqui dentro num pequeno e recôndito lugar do meu coração a chave das memórias passadas. Em busca da razão  para a angústia que me rouba por vezes as palavras, dei com a chave caida por entre as linhas tenues do meu silêncio. Coloquei-a na fechadura e rodei. Memórias  passadas e objetos surgiram então  em forma de cascata, descendo apressadamente no meu pensamento.
Os patins de bota branca que meu pai mandou vir da Alemanha quando eu era uma promissora patinadora,  a caixa dos lápis de mil cores quando mostrei jeito para a pintura, a máquina  fotográfica  Kodak que comprou para mim e minha irmã no intuito de nos incentivar para a fotografia, a pinça para a coleção  de selos e a máquina  de escrever com que me presenteou quando ganhei um prémio com um poema que fiz na escola primária.
A determinada altura deixei de ir á patinagem, deixei os selos de lado e a máquina Kodak foi ficando em casa. Nunca cheguei a ser pintora nem escritora. Guardo porém todos estes objetos e até  alguns mais. Tenho uma enorme paixão  por eles, mas quis a vida e eu que enveredasse por outros caminhos.
Guardo, fechados á  chave, tantos desejos mudos, tantas paixões adormecidas, tantas vontades preteridas. Mas uma coisa eu sinto todos os dias. O sorriso meigo dos olhos de meu pai em mim.