Disse-me uma vez uma das filhas da vizinha da frente que eu fui criada como menina fina e não sabia nada da vida. A Célia, que não vejo há anos, havia já casado pois engravidara ainda adolescente e vivia longe mas tinha vindo visitar os pais. Ora, eu buzinei à Célia não sabendo de quem era o carro que estava estacionado em frente da minha garagem, a mesma onde eu queria entrar e não conseguia porque a Célia lá tinha deixado o carro.
Depois da buzinadela a Célia saiu disparada do portão, parecendo que estava do lado de lá à espera que eu buzinasse para soltar o leão que estava dentro dela. Eu, quando a vi dirigir-se a mim com o cabelo encrespado, o ar tresloucado e a lingua afiada deixei-me ficar à espera, dentro do carro. (Ai não!) Bom, a Célia parecia que tinha ali muita coisa entalada e falava sem respirar. Sim, a Célia, que eu lembrava-me, a que tinha em criança a aparência de um gato assanhado e selvagem, que nunca vinha à rua brincar nem falava com ninguém, mas ali, naquele dia, a lingua soltou-se-lhe e ela falou, falou, falou. De tudo o que disse e que o meu escudo filtrou, ficou-se-me na memória, que eu estava a buzinar-lhe porque fui criada como uma princesa, sim, eu que tinha tido tudo, até uma bicicleta e vestidos aos folhos, eu tinha era a mania que era fina, agora buzinar aos outros, vejam lá bem.
O meu maxilar inferior foi descaindo e ficando boquiaberto por não compreender que raio de conversa era aquela, eu nem me lembrava que se tive ou não vestidos aos folhos e fiquei sem palavras, o que enervou ainda mais a Célia.
A vizinhança veio à rua e a Célia teve então todos os olhos postos em si com muita atenção, boquiabertos por a ouvirem falar. O trânsito ia-se acumulando atrás de mim que me encontrava no meio da estrada à espera de poder entrar em casa e alguém tentou acalmá-la para que tirasse o carro. Ela lá caiu em si e, a deitar fumo dos pneus, lá arrancou a cento e duzentos à hora e a gesticular ainda até deixarmos de a ver.
Pedi desculpa, entrei na garagem, saí do carro, respirei fundo e pensei: "Boa tarde Célia"