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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

E foi assim

Um ano nunca é só mau ou só bom. Um ano traz-nos coisas boas e coisas más e o que interessa é que entre o que nos traz de bom e de mau, o saldo seja sempre positivo.
Ao som do Ed sheeran folheei  o meu caderno de 2017 e detive-me na página dos objetivos. A lista não era grande, tinha apenas quatro ou cinco items sendo que o primeiro era ser feliz e o último era deixar de fumar. Dois dos items do meio não foram conseguidos, transitaram para 2018 e ainda que continuem a ser difíceis de atingir, a ideia é continuar a tentar. Do último que era deixar de fumar aos cinquenta anos tenho a dizer que foi um sucesso. Apesar de não fumar mais do que três ou quatro cigarros por dia, eram demais. Estou agora em paz com este assunto. Do item principal, em esmioçando, teria muito para dizer, o ano começou mal, cheio de contratempos, muitas contrariedades, questões de difícil resolução, alegrias aqui e ali, mais contratempos, depois tudo se foi compondo e tudo descambou de novo e de novo tudo se compôs e por aí fora, caindo e levantando-me logo a seguir. Tentando não esmorecer, inventando novos alentos, arranjando motivações e fazendo por fazer acontecerem coisas boas, o que gosto e o que quero. Nunca a tristeza levou a melhor durante muito tempo. Tenho ainda de falar do outro item do meio do qual fizeram parte vários desafios pessoais. Do que me propus e do que dependeu de mim, todos foram superados que eu sou de ir ao fim do mundo para isso. É difícil eu desistir de um desafio.
Por fim tenho de vos dizer que os anos nunca são fáceis nem difíceis, são trezentos e sessenta e cinco dias nunca iguais uns aos outros e, na maioria, são o que fazemos deles.
Posto isto, o Ed Sheeran lá ia cantando o "Perfect", mas de perfect eu não tenho nada, o que tenho é um balanço positivo e uma enorme vontade de fazer de 2018, mais um ano, que entre o deve e o haver, há-de ter um resultado liquido bastante favorável à minha pessoa. 
Fechei o caderno e fiz-me à vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Vestida para amar

Acenou-lhe, chamou-o, gritou até.  Ele não ouviu,  não entendeu os sinais, não  reparou nos seus chamamentos. Vestiu-se então  de sentido de humor, pôs  o seu melhor sorriso, embrulhou-se no manto das palavras, calçou  os sapatos da sinceridade, usou os seus óculos da espontaneidade.
Nasceu...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Alberto

Alma nobre, coração grande, sorriso rasgado e gargalhada fácil. Tudo fazia em prole dos outros esquecendo-se muitas vezes de si mesmo. As suas dores e tristezas disfarçava-as em silêncios e abstenções. Não se lhe ouvia um lamento.
Naquele dia, sem uma palavra, levantou-se e partiu.
Não mais voltou.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Jacinta

Já cansada da confusão e do barulho da tertúlia foi deixando calarem-se as vozes, esmorecerem as gargalhadas, terminarem os sorrisos. Um a um todos foram partindo, deixando-a ficar só, no silêncio do seu momento, na calma das suas horas. Assim ficou, durante um tempo imenso, imóvel de movimentos, apenas com o som de fundo dos seus pensamentos, a sua música leve e baixa, a janela aberta para ouvir a noite e espreitar a lua, sentindo pouco a pouco um crescente vazio. 
Calmamente e com todo o tempo do mundo, o seu tempo imenso, levantou-se da poltrona de tom verde, a sua preferida, tirou os chinelos e calçou os sapatos de salto,  tirou o xaile das costas e vestiu o casaco, o dos brilhantes nos bolsos, aquele que veste para ocasiões especiais. Passou um pouco de batom nos lábios, ajeitou o cabelo e saiu de sorriso tímido na face e a solidão no coração.
Foi à procura. De todos, um a um.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Perdida

Não soube precisar quando se terá tornado o mundo tão pequeno para si. Aquelas paredes, outrora enormes e brancas que refletiam a luz, eram agora escuras, atarracadas, pareciam-lhe a ela uma clausura. O ar, tantas vezes leve e perfumado, era agora pesado, denso e lhe dificultava a respiração. O calor, morno, agradável, tornara-se frio, gelado e a solidão, o silêncio... O silêncio que tanto apreciara em determinados momentos, era agora penoso, sufocante, inquietante. E aquele silêncio que lhe doía no corpo e na alma.
O querer ir e ao mesmo tempo ficar, o querer ser e não ser, o fazer e o não fazer. Tudo se amontoava num enorme turbilhão dentro da sua cabeça. Foram dias, meses, talvez anos e anos até se sentir tão pequena, tão frágil, aprisionada, amordaçada, de coração triste e alma estilhaçada.

Partiria!

Caminhou sem destino dias e noites sem fim, perdeu-se inúmeras vezes, correu, voou, quis ver o tamanho do mundo e procurou. Procurou incessantemente um lugar grande, cheio de luz, quente e perfumado, nunca o encontrando.
Foram meses e anos é deriva, de alma perdida e ainda vazia, quando finalmente voltou a encontrar-se.

Voltou!

domingo, 27 de março de 2016

Demência - Repost

Demência

Chegava sempre antes da hora marcada.
Gostava que ainda fosse dia para perscrutar o horizonte e tentar encontrar os contornos de um barco à vela, sinal de que havia solitários como ele no mar, à mercê das ondas e do sol e do frio da noite. Imaginava-se um dia num barco daqueles, com ela. Apenas os dois, um para o outro, um do outro, sem pressas, sem horas, sem medos. Eles, o céu e o mar…
Raramente havia barcos à vela, uma ou outra vez ainda viu um barco carregado de contentores e um barco de pesca, parecia-lhe a ele, lá ao longe. De resto, o mar era aquela imensidão de água em tons de azul que ondulava num vai e vem eterno e constante que o fascinava.
Mas entretanto o sol começava a beijar o mar, tingindo-o de um laranja incandescente que parecia incendiar aquelas águas frias e profundas, como se isso fosse possível e ele logo se esquecia dos barcos para observar aquela imagem tão maravilhosa. Sabia dos milhares de letras escritas, em forma de poema, carta ou livro e das imensas pinturas sobre o pôr-do-sol que o tornaram tão vulgar, mas ele continuaria sempre a apreciar a enorme beleza de tão sublime momento.
Sentia-se porém inquieto e ansioso naquele dia, ao contrário das outras vezes em que a paz tomava conta de si e só se desvanecia com o aproximar da hora do encontro em que uma enorme excitação tomava conta de si ao pensar nela. Na sua imaginação conseguia vê-la a sair do carro, talvez de saia, repleta de vincos por ter sido puxada para lhe deixar as pernas livres para conduzir, as pernas altas e esguias das quais que ele conhecia cada centímetro, a camisa desalinhada, justa no seu peito farto que estava louco para tocar, as faces ruborizadas do calor, que lhe faziam sobressair os olhos expressivos, os lábios carnudos que beijaria apaixonadamente, desesperadamente e o cabelo desgrenhado por causa do vidro aberto do carro, que afagaria agressivamente de desejo no início e mais lentamente quando ficavam os dois deitados, entrelaçados e já saciados.
Imaginava a alegria no rosto dela, quando o visse, o abraço entusiasmado, o beijo excitado que logo o transportava para outra dimensão. Seguiriam juntos então, no carro dele para o quarto onde iriam amar-se, loucos de paixão, tontos de desejo, inebriados pelo sentimento do perigo de serem descobertos. Quase conseguia sentir-lhe o cheiro, o andar desajeitado e nu à sua frente, a tatuagem na omoplata, o sinal no ventre que ela dizia ser grande e flácido, mas que a ele se lhe apresentava liso e musculado. Quase morria de desejo. Naquele dia iria amá-la como nunca!
Cada vez mais ansioso, já começava a sentir o frenesim da chegada da hora e mal podia esperar. Senti-la nos braços, abraçá-la, beijá-la, sorver cada momento sofregamente, sentir-se dentro dela e perder-se por entre os seus cabelos, os seios, as pernas… Que loucura era a dele, que nem o deixava raciocinar. Tinha tantas saudades que era capaz de largar tudo, ir com ela para longe de tudo e de todos, como se de dois adolescentes imberbes e loucos se tratassem. Sim, talvez num barco à vela, aí uns 3 meses, depois logo se veria.
Olhou o relógio e já estava na hora. “Estou insano”, pensou, aquela mulher punha-o louco, demente, irracional. Não importava, assim seria. Iria hoje propor-lhe ficarem juntos.
Reparando que estava já bastante atrasada, começou então a contar as canas dos pescadores solitários espetadas na areia, àquela hora presenças únicas na praia. Que estariam a pensar durante todas aquelas horas em que estavam ali à espera que os peixes mordessem a sua isca? Porque estariam ali? Conheceriam eles mulheres como aquela?
Cada vez mais atrasada, uma hora, duas horas quiçá… nem um telefonema, nem uma mensagem, logo hoje que estava tão sedento, tão ansioso, tão decidido. Ansioso… sabia agora porquê. Ele sabia, ele pressentira aquela ausência. Ela não viria… nunca mais.

Mas porque viria ela, pensou, se até àquele dia nunca tinha vindo?

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Há muito tempo

Naqueles tempos todos os filhos tinham o dever e a obrigação de ajudar os pais e dos nove irmãos, todos tinham trabalhos  e tarefas distribuídas. Apesar da família não ser abastada, também não  era das que passava  fome, viviam numa casa grande e sempre havia uma parte da galinha ou uma ou duas sardinhas para cada um, no entanto, após  a instrução primária não haveria futuro nessa área e os que gostariam de continuar  a estudar não  teriam essa oportunidade pois descriminação era coisa que aquela família nunca faria. Todos trabalhariam por igual para ajudar na casa até  que dela saíssem.

Duas das filhas eram empalhadeiras, outra costureira, uma governanta, uma foi para Lisboa para ser cabeleireira, seu sonho de menina, os rapazes trabalhavam nas fábricas de vidro e a Maria  Augusta, a mais nova,  a única que queria continuar os estudos mas não pôde,  coube-lhe o negócio de fazer  broas e vendê-las pelas terras vizinhas. 
Zézito, o vizinho de nove anos conduzia o burro com o seirão carregado de broas e ela, já  espigadota, fazia o negócio, vendendo as broas cozidas a cada madrugada. Sempre de sorriso  na cara, sempre com uma graçola na ponta da língua.  As freguesas adoravam-na e ela vendia todas as broas. Nunca por um momento que fosse Maria Augusta se queixava da sua sorte e de não  poder estudar e de ter de andar a chuva e ao sol a vender broas  e depois chegar a casa e ainda ajudar na lida de uma casa de onze. Se não podia estudar, ajudaria então a família, guardando sempre alguns tostões para si. Talvez para um dia. Estava certa que um dia abriria o seu restaurante e todos iriam lá  voltar muitas e muitas vezes pelos seus cozinhados e pela sua simpatia. ..Um dia haveria de ser independente.

Só  que a vida  nem sempre  acontece como planeada e quis o destino e os pais que se casasse cedo e tivesse filhos, cuidasse da casa, aprendesse a bordar e a costurar, mas nunca, nunca tivesse um restaurante,  nunca voltasse a estudar e nunca tivesse uma profissão  além  da de Dona de Casa.
Não  foi  por isso no entanto que Maria Augusta quis mal à vida ou  ao mundo  ou aos pais ou marido. Conformou-se,  resignou-se e viveu a vida o melhor que pôde. A sua alegria e felicidade transpareciam todos os dias e eram contagiantes. 
Era assim há  muito tempo....

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Histórias I - Demência

Chegava sempre antes da hora marcada.
Gostava que ainda fosse dia para perscrutar o horizonte e tentar encontrar os contornos de um barco à vela, sinal de que havia solitários como ele no mar, à mercê das ondas e do sol e do frio da noite. Imaginava-se um dia num barco daqueles, com ela. Apenas os dois, um para o outro, um do outro sem pressas, sem horas, sem medos. Eles, o céu e o mar…
Raramente havia barcos à vela, uma ou outra vez ainda viu um barco carregado de contentores e um barco de pesca, parecia-lhe a ele, lá ao longe. De resto, o mar era aquela imensidão de água em tons de azul que ondulava num vai e vem eterno e constante que o fascinava.
Mas entretanto o sol começava a beijar o mar, tingindo-o de um laranja incandescente que parecia incendiar aquelas águas frias e profundas, como se isso fosse possível e ele logo se esquecia dos barcos para observar aquela imagem tão maravilhosa. Sabia dos milhares de letras escritas, em forma de poema, carta ou livro e das imensas pinturas sobre o pôr-do-sol que o tornaram tão vulgar, mas ele continuaria sempre a apreciar a enorme beleza de tão sublime momento.
Sentia-se porém inquieto e ansioso naquele dia, ao contrário das outras vezes em que a paz tomava conta de si e só se desvanecia com o aproximar da hora do encontro em que uma enorme excitação tomava conta de si ao pensar nela. Na sua imaginação conseguia vê-la a sair do carro, talvez de saia, repleta de vincos por ter sido puxada para lhe deixar as pernas livres para conduzir, as pernas altas e esguias das quais que ele conhecia cada centímetro, a camisa desalinhada, justa no seu peito farto que estava louco para tocar, as faces ruborizadas do calor, que lhe faziam sobressair os olhos expressivos, os lábios carnudos que beijaria apaixonadamente, desesperadamente e o cabelo desgrenhado por causa do vidro aberto do carro, que afagaria agressivamente de desejo no início e mais lentamente quando ficavam os dois deitados, entrelaçados e já saciados.
Imaginava a alegria no rosto dela, quando o visse, o abraço entusiasmado, o beijo excitado que logo o transportava para outra dimensão. Seguiriam juntos então, no carro dele para o quarto onde iriam amar-se, loucos de paixão, tontos de desejo, inebriados pelo sentimento do perigo de serem descobertos. Quase conseguia sentir-lhe o cheiro, o andar desajeitado e nu à sua frente, a tatuagem na omoplata, o sinal no ventre que ela dizia ser grande e flácido, mas que a ele se lhe apresentava liso e musculado. Quase morria de desejo. Naquele dia iria amá-la como nunca!
Cada vez mais ansioso, já começava a sentir o frenesim da chegada da hora e mal podia esperar. Senti-la nos braços, abraçá-la, beijá-la, sorver cada momento sofregamente, sentir-se dentro dela e perder-se por entre os seus cabelos, os seios, as pernas… Que loucura era a dele, que nem o deixava raciocinar. Tinha tantas saudades que era capaz de largar tudo, ir com ela para longe de tudo e de todos, como se de dois adolescentes imberbes e loucos se tratassem. Sim, talvez num barco à vela, aí uns 3 meses, depois logo se veria.
Olhou o relógio e já estava na hora. “Estou insano”, pensou, aquela mulher punha-o louco, demente, irracional. Não importava, assim seria. Iria hoje propor-lhe ficarem juntos.
Reparando que estava já bastante atrasada, começou então a contar as canas dos pescadores solitários espetadas na areia, àquela hora presenças únicas na praia. Que estariam a pensar durante todas aquelas horas em que estavam ali à espera que os peixes mordessem a sua isca? Porque estariam ali? Conheceriam eles mulheres como aquela?
Cada vez mais atrasada, uma hora, duas horas quiçá… nem um telefonema, nem uma mensagem, logo hoje que estava tão sedento, tão ansioso, tão decidido. Ansioso… sabia agora porquê. Ele sabia, ele pressentira aquela ausência. Ela não viria… nunca mais.

Mas porque viria ela, pensou, se até àquele dia nunca tinha vindo?