quarta-feira, 27 de julho de 2016

Imortais

Nestas férias por terras de Espanha somos oito, quatro filhos e quatro pais e gastamos ao todo bastantes  horas a tirar fotografias. Vira daqui, vira dali, na piscina, no mar, o por do sol, as construções na areia, a espuma do mar, as acrobacias na piscina. Só os rapazes, só as mulheres, o grupo todo, á noite, de manhã, as bebidas que bebemos, as coisas que fazemos, quase tudo o que vimos. Foram também algumas as horas que usamos para colocar algumas dessas fotos no Instagram, no Facebook ou no blog. Mas mais do que os comentários ou os likes ou os símbolos que recebemos em troca,  vamos levar os momentos e as imagens gravadas na alma e no coração e até no corpo bronzeado e um dia, quando formos todos velhinhos, talvez doentes ou solitários , as fotografias vão  ajudar-nos a lembrar como fomos felizes. 
Sim tiramos muitas fotos (tenho milhares de todos estes anos, juntas  dão para contar a minha vida). Não, não  nos esquecemos de viver apesar de tirarmos muitas fotos. São para mais tarde recordar.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Voando

A areia fervia e o sol escaldava-me a pele, as letras do livro começaram a bailar em frente dos meus olhos, misturavam-se, baralhavam-se, apareciam-me trocadas sem mais eu conseguir decifrá-las. Fechei o livro e os olhos. De repente comecei a levitar, o meu corpo ergueu-se no alto, leve e a pairar. Voei. Era noite e o céu estava repleto de estrelas brilhantes que me atraíam e voava por cima do mar em direção á terra. Pequenos pontos de luz aqui e ali fascinavam-me e eu aproximava-me devagarinho. Uma família a jantar na varanda, dois miúdos a jogar á bola na praia, um casal namorava junto a uma rocha iluminado pela luz das estrelas. Ouvi gargalhadas ao fundo, um grupo dançava de copo na mão ao som de uma música que me chegava estranha, distorcida, o calor era tanto que ao sobrevoar uma piscina esta estava cheia, um cão corria á frente do seu dono. Uma brisa fresca acariciava-me a pele nua dos braços e das pernas, fios de cabelo faziam-me cócegas na cara, o meu vestido esvoaçava, como se de umas asas se tratasse. Ouvi uma voz ao fundo. Uma voz que dizia umas palavras que me eram familiares, o meu nome. Alguém me chamava. Acordei e um fio de baba escorria pelo canto da minha boca, era quase noite e eu na praia. Há tanto tempo que não voava…

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A caixa

Hesitei durante alguns segundos antes de voltar a abrir a caixa.  Abri-a muito cuidadosamente sabendo de cor o seu conteúdo. O relógio dele, aquele que era a sua cara, sóbrio, sensato, robusto e ao mesmo tempo delicado, com bracelete de fino coiro castanho e mostrador doirado. A máquina, essa, parou há três  anos num dia de Julho muito quente e cinzento e cujos ponteiros não mais deram horas desde então. A caneta, gravada com palavras de apreço, oferecida em comemoração e agradecimento por tantos anos de dedicacão e profissionalismo. É  agora minha esta caneta com que ele escrevia as suas palavras naquela caligrafia tão  bem desenhada, tão cuidada e assertiva. Gostava de ter herdado esta sua faceta tão ponderada, tão sensata, mas traçou-me o destino uma natureza espontânea e explosiva que de ponderada não tem muito. E o livro, que me emprestou vezes sem conta, para que também eu aprendesse o que ele já tinha aprendido, cheio de notas escritas com a sua mão, essa, igual á minha mas muito maior, igual no tom de pele, nas sardas acastanhadas e nos dedos bonitos, só que a dele tinha habilidades que nem que eu viva cem anos vou possuir. Fechei e guardei a caixa junto das outras recordações para a voltar a abrir no próximo mês de Julho.

Habituava-me a isto

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Interregno

Josefina navegava em águas turvas, profundas e perigosamente revoltas.  O vento estava contra e soprava cheio de pujança e de cada vez que Josefina enfunava as velas para seguir o seu caminho, as rajadas empurravam o seu pequeno barco para trás arrastando-o para mais longe de terra firme. Vagas enormes e assustadoras começavam a varrer o convés. O céu  deixava passar alguns feixes de luz por entre as nuvens mas adivinhava-se chuva e trovoada.
Josefina corria das velas para o leme e do leme para as escotilhas tentanto proteger em vão a sua preciosa carga. Aparentemente era uma luta inglória e já  se adivinhava o inevitável,  mas Josefina sabia que iria vencer mais uma tempestade e que em seguida, amanhã ou depois, o céu  ficaria limpo, o vento amainaria, o sol brilharia ainda com mais luz e o mar ficaria calmo e aveludado  permitindo a Josefina levar o seu barco até  terra firme.
Não  tinha no entanto naquele momento, tempo, disposição, inspiração  ou vontade de registar os acontecimentos no seu diário  de bordo. O tinteiro entornara toda a tinta, o papel estava molhado  e as palavras haviam sido levadas pelas ferozes ondas do mar.  Ficaria portanto provisoriamente sem registo, esta fase da sua viagem.