terça-feira, 2 de março de 2021

9/2021

 

A passar por estas bandas, bateu-me a saudade e entrei.

Pois ainda por cá ando a levar para a frente esta carcaça já entradota, uns dias cheia de vitalidade e força para pensar o futuro, outros, quieta e amadornada, à espera que isto passe.

Após e durante o radical despelamento barra poda de toda e mais alguma coisa verde do meu jardim, deu-me para as corridas. Depois, não tendo mais nada para cortar e achando que esta carcaça, mais tarde ou mais cedo ia acabar por dar de si, virei-me para algo mais calmo e dediquei-me ao makeover da despensa e às aulas de ginástica online. Sim, é que em chegando o verão e podendo eu desfilar em espaços abertos, hão-de ver-me por aí, mais firme e hirta que uma barra de ferro. Ah pois é!  E nisto, acabei por também eu, ver-me construir a minha cova no sofá da sala, dedicando-me às leituras de grandes calhamaços, entrando e vivendo assim histórias do camandro adentro.

Posto isto e não satisfeita que esta cabeça não para, tive uma ideia brilhante. Na minha garagem ouve-se agora o marulhar das ondas na areia e passaritos a chilrear enquanto eu me dedico a Yoga. Gente, descobri todo um novo mundo de calmaria e equilíbrio entre corpo, mente e emoções.  Dos vinte e um dias do programa para iniciantes que descobri no Youtube, vou no décimo primeiro e continuo com vontade de fazer isto para o resto dos meus dias.

E nisto por cá ando.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

8/2021

 

Vejo agora com clareza a minha apetência para as tesouras. De podar.

E fujam e escondam-nas todas por favor.

Está agora nu, despido de folhas e sem abrigos para os pardais, o meu pequeno jardim. Após dias e dias de poda, muitas vezes inadvertidamente, pois era apenas uma braça que me empatava a passagem, depois outra e mais outra e todo um entusiasmo que se foi tornando um grande corte e uma verdadeira terapia à minha pessoa. Já só me resta um vaso, que estou a guardar para o próximo fim de semana para depenar e após o que terei de me reinventar mais uma vez.

Cortar, cortar, cortar, juntar, limpar, eliminar. O cheiro a verde, as mãos na terra, a cara lavada do jardim e a paz e calmaria que a brisa transmite ao abanar-me os cabelos e ao afagar-me a pele, deixa em mim um efeito apaziguador. As braças cortadas e a despontar, os rebentos a nascerem e o verde mais viçoso, fazem-me crer na esperança, no futuro e no renascimento.

Tenho cá para mim que mais um mês e já me posso perdoar por ter deixado o jardim naquele estado. A primavera fará maravilhas certamente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

7/2021

Sei lá, até parece que gosto de castigar o corpo e exercitar a mente por via da resiliência e do auto controlo ao sair para correr quilómetros e quilómetros pela cidade contra a ventania. E, em chegando a casa, não satisfeita, esta que aqui vos escreve, resolve saltar à corda e fazer uma aula de alta intensidade online para quase falecer de cansaço depois. Pese embora o quase falecimento e o entrevamento que sinto nesta altura, eu vi a rua e respirei liberdade. Ora, quando família chega a casa e se alapa no sofá para o descanso de final do dia, já eu subi e desci duzentas e doze vezes ao primeiro andar e me desloquei do local do telecoiso à cozinha e à sala e à garagem, ao pátio e á varanda outras tantas como quem anda á volta da jaula à procura de uma abertura para esticar as pernas, então, quando eles entram, a porta da jaula abre e eu raspo-me assim como quem não quer a coisa.

Esta que aqui vos escreve encontra-se neste momento literalmente colada ao sofá e nem sabe se vai conseguir subir as escadas para o quarto por via de não conseguir mexer as pernas. Sim, esta que aqui vos escreve, de tanto entusiasmo por sair da jaula, correu doze quilómetros feita tola. Está tudo bem, claro e o que mexe comigo não é estar fechada, é saber que não posso sair. De resto, está-se bem. Fiquem bem

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

6/2021

 

Eram cerca de três e meia da tarde quando batem ao portão. O dia estava tristonho tal como tinha estado durante toda a semana e o vento uivava lá fora. Notavam-se as suas fortes rajadas a entrar pelas friestas das janelas e da porta e ouviam-se folhas a esvoaçar. Alba Maria, de volta das rendas nos panos de cozinha, sentada no sofá, manta nas pernas e pantufas quentinhas, o gato enroscado a seu lado, que o aconchego nestes dias é tudo, decidiu não ir ver quem era e o que pretendia. Na certa seria mais um vendedor inoportuno e ela não estaria interessada em contratos de energia ou telecomunicações, alterações de fornecedores ou o diabo a sete. Além disso, na televisão dizem constantemente que os idosos têm de estar atentos pois são alvos fáceis. Não ela, claro, que sabe topar essa gente a léguas, mas não, não lhe apetecia ouvir conversa fiada. No entanto, a insistência ao portão que parecia dada à urgência fez Alba Maria ficar em alerta. Ao fim de algum tempo decidiu então pegar na bengala, levantar-se e vagarosamente dirigiu-se ao portão tentando ver se percebia quem era espreitando pelas frinchas, não conseguindo porém vislumbrar alguém. Abriu o portão, nada. Estranheza aquela, não por ter demorado a abrir, mas de admiração pois tanta urgência e foram-se logo embora. Caramba, levantou-se para nada, esta gente não se enxerga. Olhando então para baixo viu um embrulho que levantou com cuidado e abriu devagarinho. Lá dentro estava uma caixa com meia dúzia de ovos, três diospiros e duas fatias de pão de ló ainda mornas….

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

5/2021 - Zé

Meu gatarrão preto de bigodes e patas branquinhas, meu companheiro de manta e sofá nas leituras, o meu ajudante de cozinha, o meu colega de teletrabalho, o assistente de jardineiro, foi atacado por dois cães e ficou muito mal tratado. Os cães, aparentemente raivosos e esfomeados, andam com a carroça dos ciganos, entram em quintais e comem galinhas e outros animais, reviram os lixos, roubam tudo o que podem e atacam animais de estimação indefesos, como o meu Zé que via a rua na varanda quando foi surpreendido. 
Ora, estes cães, tal como os seus donos, fazem tudo o que querem e saem sempre impunes.
Já o meu Zé.... Estou com ele de coração partido. As suas dores, são também minhas e a sua tristeza faz crescer a minha  a todo o momento e já está do tamanho do mundo. Tem a barriga com uma grande sutura, o cachaço também, perdeu dois dentes e algumas unhas, tentando defender-se agarrando-se à vida, literalmente com unhas e dentes. Medicado e cuidado, mas com uma convalescença muito lenta. 
Quero muito que se agarre às cinco vidas que lhe restam, pois praticamente já gastou duas das sete que lhe são atribuidas. Tenho dúvidas. E medo. O meu companheiro e eu estamos a tentar sobreviver a isto tudo. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

4/2021 - Meio-dia

Ainda o dia nem vai a meio e já estou com convulsões interiores.
Confinada aqui no meu canto, tranquila e a debitar trabalho por fora, ansiosa e aos pulos cá por dentro, sabendo que ser livre, o meu bem mais precioso, não é mais meu por agora. Apenas sou livre nos pensamentos e nos sonhos e apelo à Nossa Senhora da Criatividade para listar uma série de coisas que posso fazer em casa, pois no trabalho sei muito bem o que tenho de fazer. É desta que pesquiso um anti rugas para os olhos que estas pálpebras descaidas já nem os deixam falar. Os olhos, claro :)  
Haja saúde, bem que por agora ainda me assiste. Fiquem bem. Fiquem em casa. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

3/2021 - Bardamerda!

Eu sei que é para o nosso bem, que temos de ser fortes, que é provisório, que temos de ajudar o pessoal da saúde e os hospitais e que no fim disto tudo, alguns vão ficar bem. 
Mas.... posso?
Posso dizer que estou cansada, que não consigo dormir, que estou deprimida, que não me apetece ler nem escrever, nem trabalhar, nem arrumar, nem ir às compras, nem falar com ninguém nem sequer fazer nadinha, só vegetar e esperar que passe?
Posso dizer que se lixe toda a gente? Que se lixem os ranhosos da campanha eleitoral, as próprias das eleições, as vacinas, a pandemia, a economia, mais os que andam a passear na rua sem máscara todos contentes e eu fechada porque estou a pensar neles, posso? 
Mais um confinamente e nem bolos, comidas ou vinho me alegram,  posso? 
E dizer umas caralhadas, posso?
Oh pah Desculpem!