terça-feira, 3 de março de 2015

Histórias II - Acompanhante

Dirigiu-se ao cacifo apressada, tirou a bata, descalçou as botas de biqueira de aço, enfiou tudo lá dentro, pegou no casaco e na mala, despediu~se das colegas e saiu a correr. Estava ansiosa por chegar a casa, tomar o seu duche relaxante, despir-se daquele cheiro, daquela personagem e pôr o seu perfume. Assim que chegou ao carro, olhou o nome na agenda e esboçou um sorriso.
No caminho para casa foi pensando em como tinha tanta sorte em ter conseguido aquele turno, assim podia dormir de manhã antes de voltar ao trabalho que a noite ia ser longa.

Já em casa e enquanto mordiscava uma maçã abriu o roupeiro. A sua melhor lingerie, preta, como ele gostava, o vestido cor de beringela, aquele que melhor lhe acentava, o decote evidenciava-lhe o peito firme e a cor fazia sobressair os seus olhos cor de avelã e a sua pele cor de pêssego. Afinal era o seu melhor e mais assíduo cliente, aquele, o único que lhe retribuía o prazer que ela lhe dava. Sentia até uma certa afeição, um gostar tremelicante, uma fraqueza nas pernas quando ia ter com ele, mas sabia, ela sabia que não podia ir além disso. Se ultrapassasse aquela ténue linha, aquele muro invisível, aquela ponte sem retorno, perder-se-ia para sempre, não haveria volta...

Tomou o seu banho, calmamente, deixando correr a água pelo corpo revigorando-o e passou o creme hidratante. A depilação estava impecável, as unhas também, as sobrancelhas no seu melhor que ainda ontem cuidara delas. Maquilhou-se e penteou-se como se de uma profissional se tratasse, aliás, ela já tinha sido profissional nessa área, mas trabalhava demasiadas horas, não dava para conciliar e ela queria dinheiro, esse vil metal que lhe permitia obter certas mordomias. A lingerie, as meias de seda, o vestido, os sapatos de marca e a mala igual. O casaco, faltava o casaco, de fina fazenda de um costureiro nacional conhecido. Olhou-se no espelho, deu uma volta. "Perfeito"!
Ela sabia que era a melhor, a mais bonita, a mais elegante, a mais meiga, aquela que todos queriam.

Dirigiu-se então ao restaurante combinado onde ele a esperava para jantar e começou o ritual, o jogo que gostava de jogar, o da sedução. Depois seguiram para o hotel, descalçaram-se e esticaram-se na cama, ele hoje queria conversar. E durante duas horas ele falou, falou e ela afagava-lhe o cabelo, dava-lhe a mão e ouvia...
Entretanto ele calou-se, olhou-a nos olhos e começou a desapertar-lhe o vestido, chegou a hora de ela lhe dar prazer.

Ao chegar a casa, pôs a mão na mala para procurar a chave e tocou no envelope. Aquela noite rendera-lhe 200 Euros. 200 Euros!! O carro já estava pago, a casa comprada, mobilada e a ser paga, tinha jóias verdadeiras, um telemóvel topo de gama. Tinha roupas e sapatos de marca,  frequentava os melhores restaurantes e hotéis, andava nos melhores carros, mas tudo isto só podia usar à noite claro, quem iria compreender aquelas coisas com um salário de operária. 

Enfiou a chave na porta de casa e abriu-a, uma casa linda porém escura, fria, sozinha, desprovida de calor humano. Não tinha amigos, quase não tinha ninguém, nem sequer um gato no sofá à sua espera. Tinha tudo, mas não tinha nada, valeria tudo aquilo a pena? Ela não passava no final de contas de uma prostituta de luxo...

Ah! Tinha algo, tinha uma bata e umas botas de biqueira de aço dentro de um cacifo à sua espera amanhã.
Deitou-se exausta e dormiu.

Coisas que me arrepiam...

Ainda ontem trocava fraldas cheias de xixis e cocós  e já estou a poucas semanas da viagem de finalista do secundário de MaiNovo. E isto é coisa para me fazer nascer uns cinco ou seis cabelos brancos, senão uns  10 ou 20 ou mesmo toda uma cabeleira!

Após todos estes anos ainda me espanta verificar o quão diferentes são um do outro os meus dois filhos, nascidos do mesmo pai e da mesma mãe e tendo tido a mesma educação, o mesmo tipo de alimentação e até de terem bebido a mesma água, da mesma fonte de onde Papai trazia uns garrafões para mim, que a da torneira, dizia ele, sabia a desinfetante.

A MaisVelho não lhe interessou a viagem de final de curso, a tal semana de grande curtição em Espanha, longe dos pais e com o consentimento e o patrocínio deles. A ele, bastam-lhe dois ou três amigos, a sua escrita de letras de rap e hip hop, a escolha das batidas e os concertos onde dá a conhecer a sua visão do mundo tão sui generis e virada para o anti-social.

Já a MaiNovo, interessa-lhe o mundo. Todo um mundo lá fora, à espera de ser desbravado e explorado por ele. Se um é virado para o interior, o outro é completamente virado para o exterior, ter amigos, muitos, correr mundo, passarinhar aqui e ali, ter vários grupos diferentes pelos quais se divide, conviver, ir a jantares e a festas, este filho é um social. A ele pouco lhe importa a leitura ou a escrita, a ele interessam-lhe sobretudo as pessoas.

Muito se fala dos perigos e dos acidentes destas viagens de finalistas, muitas histórias ouvimos que acabam em tragédia e a mim isto arrepia-me e deixa-me a tremelicar cá por dentro, mas como dizer não a um miúdo que tem cumprido com os seus deveres e obrigações porque algo poderá correr mal?

E depois lá vai ele, uma semana para Espanha com mais uns quantos, com Pai e Mãetrocínio...


segunda-feira, 2 de março de 2015

Assim haviam de ser as rotundas



Era capaz de passar horas às voltas nesta rotunda sem ninguém me apitar ou fazer sinais de luzes ou sequer gesticular como quem diz "estás na faixa errada, sua...", ou "devias ir por dentro ou por fora sua...",  "não sabes o código sua..." Quando muito ia ter os meus colegas a chamar-me que eles já iam lá à frente e eu nunca mais saia da rotunda.

Apesar de adorar btt, por vezes também pedalo na estrada e vejo que se há ciclistas que andam na estrada fora das ciclovias e lado a lado, embora até seja permitido por lei mas dificulta o trânsito, há muitos automobilistas que fazem tangentes e muitas vezes até secantes propositadamente e apitam para nos assustar, provocam, atravessam-se à nossa frente, travam de repente e mudam de direção sem fazer pisca como se nós não existíssemos. Muitos detestam ciclistas e acham que as estradas são deles e que os ciclistas não devem estorvar-lhes.
Que é lá isso?
Eu sou ciclista e automobilista e sei respeitar ambos os lados, as estradas são de quem anda nelas.
Vá, respeitemo-nos uns aos outros!

domingo, 1 de março de 2015

Das duas uma

Está decidido, para a próxima ou rapo o cabelo ou apareço em casa de carapinha!

Uma gaja aproveita que está a chover e não vai pedalar e passa três loooongas horas e meia no cabeleireiro onde anda para ir há meses. Vem de lá com pentes e escovas e tintas e pratas que chegam para 3 anos mas ainda assim, chega a casa toda contente e a sentir-se gira com as suas novas madeixas nos 10 longos cabelos que ainda lhe restam e ninguém diz nada???
Uma gaja sofre muito...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Lembram-se da Pipi das meias altas?

Quando casou, meu pai nunca quis que faltasse nada lá em casa e prezava muito a saúde de Mamãe, não querendo que ela carregasse as bacias da roupa para lavar até ao ribeiro. Vai daí mandou construir um tanque de lavar roupa no quintal, em cimento e de tamanho XL que mais parecia uma piscina. Depois veio a máquina e o tanque lá ficou, mas eu andava sempre a piscar-lhe o olho...
Eu e prima Goreti, sim, tenho uma prima Goreti, não é italiana, mas os pais puseram-lhe este nome e eu até gosto, é diferente e exótico. Dizia eu então, que ambas as duas, andávamos a magicar há algum tempo uma cena para fazer naquele tanque:


Lembram-se da Pipi das meias altas? Pois é, diziam que eu era parecida com ela, vá se lá saber porquê, talvez por ter a tromba cheia de sardas e ser uma Maria Rapaz, não sei, mas esta cena não me saía da cabeça.
Um belo dia, esperámos que Mamãe saísse para as compras, esgueirámo-nos até ao quintal, enchemos o tanque de água até cima, fizemos uns totós no cabelo, calçámos as nossas meias às riscas do sarau que íamos ter na coletividade e saltámos lá para dentro. Bom, foi o maior forrobodó das nossas vidas... até Mamãe chegar, claro! Gastámos litros e litros de água do poço que servia para regar o quintal, quase afogámos as alfaces plantadas ali ao lado com a água que chapinhámos e ainda tingimos as meias e ficámos constipadas, Castigo durante três longas semanas! As crianças sofrem muito :))

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Verões azuis

Eram os anos 70 e tal e à semelhança de outras pessoas por aqui, também nós, acampávamos na praia, todos os verões.

Em chegando o dia 1 de Julho, carregávamos o carro até ao cimo de tudo o que possam imaginar, por vezes era até necessário ir por duas vezes e rumávamos ao acampamento para montar a nossa casa de verão em cima da areia da praia. Um areal imenso, quase branco, onde espelhava o sol e onde as ondas do mar vinham morrer na praia numa espuma de um branco imenso, mesmo ali, quase aos nossos pés.
A tenda, a nossa rica casinha ultra moderna trazida da Alemanha por um familiar, tinha 4 assoalhadas, 2 quartos, um para os meus pais, outro para mim e minha irmã, a sala, em todo o comprimento e a cozinha com uma janela de rede transparente e uma pála por fora, que abríamos de manhã e fechávamos à noite. Na cozinha havia um fogão de dois bicos, um porta loiça, um despenseiro para as mercearias e até um pequeno frigorífico. À volta da tenda havia estacas onde eram atados cordéis para delinear o nosso território. À frente, deixava-se um espaço para a mesa e as cadeiras, onde havia sempre uma jarra com flores que colhíamos nos pinhais circundantes  e um chapéu de sol. Comíamos sempre  lá fora, mesmo à noite, à luz do "pitromax". O sol a aquecer-nos as costas, o barulho das ondas, o mar ao fundo. Ali não havia rádios, nem televisões, conversávamos o tempo todo.
E ali passávamos os verões, nós as mulheres e os filhos, de 1 de julho até finais de setembro e os pais, em acabando as férias, saíam de manhã para ir trabalhar e voltavam à noite. Sim, na altura era assim na classe média baixa, talvez.

Bom, mas o céu estava sempre azul, o mar sempre calmo e nós éramos livres. Livres para fazermos o que nos desse na real gana. Eu, tinha de cumprir as horas das refeições e se comesse, que eu nunca comia, podia andar livre e solta sem preocupações e sem castigos e eu fazia um esforço ganhando assim a minha liberdade.
Os pais juntavam-se uns com os outros para confraternizar, os irmãos mais velhos jogavam voleibol, nadavam, namoriscavam e jogavam à lerpa a dinheiro. E nós, os putos, passávamos horas no mar, íamos às camarinhas, visitávamos outras praias, trepávamos às dunas e organizávamos expedições para explorar tudo ali à volta. Um dia conhecemos até uma família inglesa com 3 filhos que nos dava arroz doce sem açúcar e pão com manteiga de amendoim para o lanche. Todos juntos tivemos aventuras que davam para fazer mais uma coleção de livros de "os Cinco" da Enid Blyton.
Verão após verão.
Fui tão feliz a acampar na praia.
Mas depois, houve um ano em que se tornou proibido acampar na praia e construíram um parque cheio de condições no pinhal lá em cima. Nunca chegámos a ir para lá, não era a mesma coisa. E depois descobrimos o Algarve e as casas longe da praia e todo um areal apinhado de gente estranha e cheia de nove horas. Não mais houve expedições ou descobertas, bandos de amigos à solta ou sequer liberdade.
Saudades que eu tenho daqueles verões azuis...