quinta-feira, 13 de julho de 2017

Perry

Chegou num dia de verão ao colo de meu pai, eramos ambos umas crianças. 
Uma pequena e engraçada bola de pelo cor de fogo, Perry, o meu cão.
O meu Perry não estava preso com uma corrente como os outros cães da vizinhança, nem ladrava raivosamente a tudo e todos que passavam perto, ele tinha um canil de cimento, grande, vedado com rede e na maioria dos dias andava solto pelo quintal brincando comigo. Lá em casa sempre fomos habituados a gostar, cuidar e respeitar os animais e tivemos vários, mas o meu Perry era especial. Ele sabia quando eram horas de lanchar ou jantar e ladrava até eu o acompanhar até casa, ele sabia que nos passeios tinhamos de olhar a ver se vinham carros para podermos atravessar e parava, ele sabia a que distância tinha correr ao meu lado quando eu ia de bicicleta e sabia o caminho para a fonte quando minha mãe me pedia para ir buscar água. O meu Perry ficava sentado encostado a mim quando eu estava de castigo porque me portava mal e muitas vezes deitava a cabeça no meu colo.
O meu Perry e eu crescemos juntos, corriamos, saltávamos e até dançávamos a valsa os dois. Mas o Perry foi treinado para caçar coelhos bravos e perdizes e a determinada altura começou a saltar os muros de casa e a andar muito tempo fora. Foi atropelado três vezes sobrevivendo sempre devido aos nossos cuidados. Eu, chorava. Chorava sempre até ele ficar bom e ele ficava. Um dia matou uma ninhada de patos de uma vizinha e ficou lá deitado à espera que o felicitassem por tamanha caçada, outra vez roubou um molho de chouriços da mercearia da nossa rua e enterrou-os no quintal e outra vez ainda, roubou um pão-de-ló inteirinho da cozinha de mamãe. Ele caçava tudo e por isso começou a ter de ficar preso no canil. Eu tinha de prometer que não tirava os olhos dele para o poder soltar.
Certo dia, já muito velhinho, esgueirou-se para o meu quarto e partiu, em paz, enrolado na colcha da minha cama, tinhamos cerca de dezasseis anos...
Ainda hoje o vejo de orelhas e patas felputas cor de fogo a correr ao vento no quintal.




12 comentários:

  1. Boa noite querida!
    A minha visita hoje é para lhe parabenizar pela linda postagem e desejar-lhe uma noite de paz e um amanhecer feliz.
    Abraços, Profª Lourdes Duarte.
    https://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.com.br/
    http://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
  2. Também tenho uma história linda como a tua. Também fui criada tendo animais por perto e ensinamentos de cuida-los e respeitá-los. Tal como tu nunca o esqueci em se falando em cães, dos muitos que tive, ele é "O CÂO"
    Acho que tal como tu, lhe vou dedicar um post, ele merece isso, pelo tanto bem que me fez a mim e a meus manos.

    Lindo esse teu Perry
    Beijinho GM

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Non, quem gosta de animais entende estas coisas e só tem a ganhar. Um cão é dos melhores amigos que podemos ter. Conta-corrente a tua história :)
      Beijinhos

      Eliminar
  3. Que bonito!!
    Tu tiveste um Perry eu tive um... de nome mais simples e banal: Boby.
    Não era de caça, mas era ternurento. Não era de ladrar, mas quando ladrava ouvia-se. A única coisa que «caçava» eram os besouros na areia da praia - com os quais brincava até se cansar ou até estes se enterrarem o suficiente para conseguirem escapar dos seus dentes brincalhões e patas escavadoras. Falava connosco de uma forma única. Quando queria ir à rua, sentava-se à porta. E para ser visto, já que era pequeno, pulava numa cadeira. Ia e vinha da rua sozinho, sem trelas que quase nunca foram necessárias. Necessárias seriam se temêssemos que nos quisessem roubar o animal - o que quase aconteceu mais que uma vez. Soltava um «béu» quando estava fora e queria voltar a entrar. Era tão bonito!! No dia em que partiu, de forma ingrata, mas brava e matura, também foi a mim que veio ter quando pressentiu que algo não estava bem...

    Esse da foto deve ser de um cão parecido ao Perry - pois a imagem é de qualidade e imagino que quando tinhas 16 anos as máquinas analógicas não tiravam fotos assim :) O teu Perry era dessa raça - cão salsicha com pêlo? Também tive um desses. Muito medroso devido a um trauma que teve na infância antes de nos vir parar às mãos e incapaz de fazer um mal que fosse. E dono de uns olhos castanhos e ternurentos. Acabou por falecer... e como era a companhia de um gato, que lhe fazia de tudo que o pobre do cão deixava, a surpresa foi que o gato não aguentou a saudade do amigo cão e faleceu meses depois, ainda a chorar a sua perda.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que história bonita Portuguesinha. Os animais são fantásticos. Sim está foto é de uma igualzinho ao meu, um setter irlandês. Eu só tenho a preto e branco que naquela altura era assim e não se via que ele era cor de fogo :) beijinhos

      Eliminar
  4. Eu tenho uma Kiara. Ligeiramente mais dourada que o teu, e uma amiga fantástica =)

    ResponderEliminar
  5. São amigos que se recordam toda a vida.
    Um abraço e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  6. E os animais nunca se esquecem GM, eu sei o que é isso, quem gosta deles nunca os esquece.
    Foi feliz contigo e isso é que importa.
    Jinhos GM

    ResponderEliminar
  7. É pena que eles vivam pouco, relativamente a nós e tenhamos de os ver partir, muitas vezes depois de um longo sofrimento a que não é fácil pôr termo...

    ResponderEliminar
  8. Os animais conseguem ser mais belos que a própria vida.

    ResponderEliminar
  9. Quando se gosta não esquecemos, por muito que o tempo passe e eles já não estejam presentes.

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

    ResponderEliminar

Quem quer pensar comigo: