"Não suporto meios termos. Por isso, não me dou pela metade. Não sou meio amiga nem quase seu amor. Ou sou tudo ou não sou nada".
Clarice Lispector
"Não suporto meios termos. Por isso, não me dou pela metade. Não sou meio amiga nem quase seu amor. Ou sou tudo ou não sou nada".
Clarice Lispector
Ainda me estou a refazer do dia inteiro que passei ontem em casa entre o sofá e a cozinha e a cozinha e o puf frente á lareira, mais às merdas que vi na TV e as que li, as festas que fiz ao gato, as vezes que me dirigi á merda do armário da casa de banho que precisa ser limpo e arrumado e voltei para trás porque não me apetecia mexer um dedo. Ainda não me refiz da puta da vontade que não tive de tomar a decisão de calçar umas galochas e vestir um impermeável e sair para a rua quanto mais não fosse para ser levada pelo vento ou apanhada pela chuva. E não pedalei! Hibernei! Um hibernamento tal que só há pouco reparei que havia sol... yuuppiii!
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| Estou orgulhosa de mim e do meu pilão :) |
Agora imaginem-me de tranças e fato comprido, não, não é um robe, imaginem umas vestes de seda, debruadas a oiro, super adequadas para dias de chuva, sentada num banquinho no alpendre, desculpem, pérgula, de lira ao colo e a dedilhar as cordas. Estou rodeada de gatos e os passaritos vão chegando a cada acorde instalando-se nos barrotes do telhado. A buganvília dança na minha frente e as orquídeas enxotam os caracóis e as lesmas que se aproximam nestas alturas de chuva para as comerem.
Entre miados, chilreios, mais a minha voz de cantora lírica, está ali a barraca armada.
Ah! Já me esquecia de vos elucidar, a música vem do gira discos, que eu cá não sei tocar lira, muito menos cantar.
Ora vamos lá, cantem comigo:
Não há chuva não há vento
Nada que me turve o pensamento
Ó tristeza vai-te embora
Que é chegada a tua hora
E se teimas em ficar
Até os meus pés molhar
Vou até ao fim do mundo
Só para te parar
Daqui vejo o dia em vários ângulos e está cinzento e triste em todos eles. A borrasca cai incessante há horas, há dias, há quase três tristes dias. Pingos de chuva juntam-se e em conjunto escorrem pelos vidros deixando-os com riscos de água, parece que choram. Faz três tristes dias. As árvores abanam lá fora, dançam ao sabor do vento e alheias, tremem, gemem, parece que sofrem. Já lá vão tres dias. Os pássaros que observo todas as manhãs a saltitar no relvado do estacionamento e de árvore em árvore, desapareceram, não sei onde se resguardam nestes tristes dias. Os cães da casa ao lado não estão como sempre perto do muro a ladrar, faz três tristes dias. Da receção não chegam gargalhadas e nos corredores não se vêm sorrisos.
Os carros que passam na estrada levantam aquela babugem que se espalha no ar e esse ar, húmido, pesado, triste, tudo engole á sua volta. Vejo rostos cinzentos, de escuro vestidos, afundados nos ecrãs e a carregar nas teclas lentamente. Parece geral a borrasca. Faz três tristes dias....
Se se pudesse beber um birinaite na empresa, era hoje.
Disseram-me na semana passada dos estúpidos que estavam em vias de extinção. Esses e os parvos de merda. Há pouco vieram dizer-me que cada vez há mais....
Em que é que ficamos?