segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Pedaços de história

Chovia copiosamente lá fora, grossos pingos escorriam pelas janelas toldando a paisagem que avistava dali. As braças daquela pequena planta oriunda do Brasil que outrora esteve à morte dentro de casa e  foi plantada no jardim fizera-se uma árvore enorme, batiam nas telhas da garagem. Sentia o vento soprar com quanta força tinha, como que a varrer o mundo de todos os males.
O passeio de bicicleta até à serra ficaria adiado...
Dirigiu-se ao maior roupeiro da casa onde estavam guardadas as roupas do passado. Seria então nesse dia, com tempo, que se iria desfazer delas. 
Começou a abrir as portas e a espalhar tudo pela cama. Calças à boca de sino, bermudas, calças à meia canela, saias de verão, fatos completos de uma profissão de outrora, blazers de todas as cores, calças de riscas, camisas aos quadrados, montanhas de calças pretas, vestidos de cerimónia, dois fatos de baptizado de rapaz, dois fatos de meninos das alianças, um vestido de noiva, "O" vestido de noiva.... Algumas daquelas peças com mais de vinte cinco anos, algumas dois números acima do que usava agora, outras tão justas que dificilmente caberia nelas. Casacos curtos, casacos compridos, cada peça usada em ocasiões de que se lembrava como se fosse naquele dia, peças com história, peças com sentimentos que a arrepiavam a cada toque. Pirâmides de tecidos e texturas com cheiro a bafio e repletas de vincos. Rugas de uma vida.
Mas como desfazer-se delas, como destralhar assim uma vida, como separar-se  da sua história? Sabia-se fria e desapegada,  mas aqueles não eram apenas bens materiais, eram momentos, eram uma pessoa, eram a sua pessoa, o seu passado. Não!
Empilhou as peças por tipo, cuidadosamente dobradas, e colocou-as de volta nas prateleiras, desta vez nas portas de cima do roupeiro, um pouco mais fora do seu alcance. Pelo menos por agora iriam repousar mais uns anos para que de tempos a tempos pudesse olhar para elas e recordar pedaços de vida, pedaços de passado. 
Julgava-se mais dura...
E que a chuva não volte nos próximos fins de semana.

13 comentários:

  1. Também fiquei enfiada em casa e resolvi ir para o sótão destralhar. Coisa mais difícil não há. Os brinquedos da miúda, coisas que já nem sabemos que lá estão. Sabes o que costumo fazer? Meto tudo dentro do carro e toca para a casa dos pinheiros. É a garagem da casa do subúrbio. A minha avó até se passa.
    Mas fiquei com espaço para meter as 3 bicicletas que estavam desde o final das férias atracadas no meio da sala. Menos mau.

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    1. Pois... quando há problemas de espaço não há outro remédio senão destralhar de vez. Eu já destralhei muitas coisas, mas estas não consegui mesmo :)

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  2. Há um tempo para tudo e nem sempre estamos preparados para nos separarmos de certas coisas...

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    1. Confesso que já foi mais fácil para mim destralhar, isto deve ser coisa da idade, começo a ficar melancólica :)

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  3. A dificuldade da separação do que nos tocou em algum momento da nossa vida. Tenho essa experiência em mim.
    Boa semana.
    Mia

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    1. É esperar o momento certo. Ainda não foi desta :)

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  4. Sofro do mesmo mal ;) mas consigo destralhar com mais força de vontade num dia de sol que num de chuva, cinzento e melancólico - porque desarrumo tudo e não consigo desapegar de quase nada...mais vale ir para a cozinha fazer scones! :)

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    1. tens toda a razão, no domingo fiz arroz doce e passei a tarde a comer mas no sábado... ver se o sol volta :))

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  5. Este teu post levou-me a alguns anos atrás e fez-se reflectir a situação, resultou longa, demasiado longa para aqui, por isso, em forma de comentário deixo no link a resposta ao teu magnifico post.

    http://noname-metamorphosis.blogspot.pt/2015/10/trapos-tralhas-e-afins_12.html

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    1. Noname, há coisas que nos fazem pensar. Passamos tanto tempo a olhar para o presente e a pensar no futuro e depois olhamos certas coisas e tudo volta atrás. Adorei o teu post. Gosto de ti. Beijinho

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  6. Ontem aproveitei para arrumar roupa de Verão e lavar a de Inverno... fico sempre um bocadinho nostálgica quando selecciono roupa para dar ou deitar fora.

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    1. É sempre difícil desfazermo-nos de certas coisas, mas há algumas que não conseguimos mesmo :)

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  7. Há coisas das quais é difícil 'desfazermos-nos'...
    Eu passo a vida a arrumar e a selecionar as roupas de Inverno e de Verão, principalmente as de filhote que cresce e a quem tudo depressa deixa de servir...
    :O

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