Naquela
intermitência de sono leve em que não se consegue discernir se dormimos ou se estamos
despertos, imaginei-me longe, muito longe, a correr por entre as urtigas atrás
do cão cor de fogo. Sentia as pernas a ficarem arranhadas, mas só pensava em
chegar ao fim do caminho, rente ao muro ladeado de flores. O cão alcançava-me e
juntos rebolávamos pela erva enlaçados um no outro e depois voltávamos de novo
ao início do caminho para repetirmos a correria e os abraços e as festas no
pelo sedoso do meu companheiro de brincadeiras.
Quando chegasse
a noite, minha irmã assobiaria, eu regressaria a casa, ela ajudar-me-ia a tomar
banho para se assegurar que eu tirava toda a terra do cabelo e dos pés e das
unhas, jantaríamos em família e eu adormeceria no sofá de tão cansada das
correrias. O cão, esperaria por mim até ao dia seguinte no tapete da entrada.
Entretanto,
comecei a coçar as pernas, picadas das urtigas e vi-me na minha cama, ainda cansada,
mas tão feliz achando que era outra vez criança e que a minha alma era ainda livre e
pura e despreocupada. Procurei o cão cor de fogo mas não encontrei, também já não havia
muro ladeado de flores nem caminho para correr.
O despertador começou a tocar e eu comecei a pensar. O pequeno almoço por fazer, o jantar por pensar, a roupa por
estender, o pó por limpar e um dia de trabalho à minha espera… O seguro por pagar, as compras por fazer, uma subscrição por cancelar, uma encomenda por fazer. Uma consulta por confirmar, uns telefonemas por fazer, o frigorífico por reparar....
