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terça-feira, 4 de junho de 2019
Fisioterapia
Nos preparativos para voltar ao trabalho ainda esta semana, sem dúvida que o ponto alto do meu dia tem sido a ida à fisioterapia.
Ali, não sou a mais velha como na maioria dos sítios que frequento, ali, sou das mais novas e a menos entrevada.
Olho para aquela gente à minha volta e fico assustada. A vida é mesmo madrasta e a velhice e a doença parece que surripiam a dignidade. Admiro e venero a boa disposição de algumas daquelas pessoas que se vêm assim mas não esmorecem. Um dia quero ser assim.
E isso dá-me esperança. Esperança para o imediato e esperança para o futuro.
Mas bom, esta semana comecei com os saltinhos no trampolim, os agachamentos ainda que pequenitos e com exercícios em desequilíbrio no bosu.
Não tarda já estou a correr e a pedalar.
O meu tendão de aquiles está mais rijo que um bife do pojadouro. Eu queria que já estivesse transformado em picanha, mas é o que se pode arranjar no momento.
O meu tornozelo está um pouco estranho com altos e baixos onde não devia e inchado tipo balão mal cheio. Isso é o de menos, só quero é que não doa.
A minha perna direita está magrinha que só ela, que parece uma perna de pau e vai ser uma trabalheira fazê-la ficar firme e hirta.
Sou uma chata com estas coisas eu sei, mas entretanto vou estar tão ocupada que nem vou ter tempo de me lembrar deste assunto e daqui a quinze dias já me estou a queixar que preciso de férias.
Coisa que nunca me passa, esta insatisfação, faz parte da minha alma.
terça-feira, 28 de maio de 2019
Ó p'ra ela
A andar tão certinha e direitinha, sem canadianas, sem coxear e ainda com os dentes todos :D:D
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Sim, as anestesias...
Dizem que falando com as plantas, elas crescem e florescem mais depressa.
Eu cá não sei nada disso de falar com as plantas, mas tenho grandes prosas com Zé, o gato e só sei que o meu jardim nunca esteve tão bonito. Às tantas é o gato que fala com elas.
O meu pequeno jardim está verde e viçoso e todos os dias nascem braças e guias novas. Há duas semanas que cuido dele, regando, aparando rebentos que nascem fora do sítio, ponho terra, tiro ervas daninhas e aprecio a sua beleza sorrindo. As minhas unhas estão encardidas de esgravatar na terra e as mãos picadas de aranhiços e urtigas, mas isso não interessa nada, o meu jardim está tão lindo :)
O meu pequeno jardim está verde e viçoso e todos os dias nascem braças e guias novas. Há duas semanas que cuido dele, regando, aparando rebentos que nascem fora do sítio, ponho terra, tiro ervas daninhas e aprecio a sua beleza sorrindo. As minhas unhas estão encardidas de esgravatar na terra e as mãos picadas de aranhiços e urtigas, mas isso não interessa nada, o meu jardim está tão lindo :)
quarta-feira, 22 de maio de 2019
Anestesia
Não é que a minha vida esteja povoada de acontecimentos dignos de notas ou palavras ou sequer letras escritas pois a mesma encontra-se há uns tempos mais insossa que um pão integral.
A questão é que a minha cabeça é ultimamente como uma folha em branco, um rol por preencher, uma nuvem cerrada sem raios de sol que a perfurem.
Aqui não passa nada. Não entra grande coisa, quanto mais sair.
Falta-me a imaginação, rareia-me o pensamento, estou muda de palavras. As minhas lembranças estão em negação, teimosas que só elas. Quando preciso ou quero, nada se me aflora ás ideias.
O engraçado é que nem me sinto mal nem me sinto bem, não estou infeliz nem eufórica, não estou triste, mas também não estou exuberante.
Estou.... vazia.
De certezinha que isto é das anestesias.
Acho que me adormeceram e se esqueceram de me acordar.
A questão é que a minha cabeça é ultimamente como uma folha em branco, um rol por preencher, uma nuvem cerrada sem raios de sol que a perfurem.
Aqui não passa nada. Não entra grande coisa, quanto mais sair.
Falta-me a imaginação, rareia-me o pensamento, estou muda de palavras. As minhas lembranças estão em negação, teimosas que só elas. Quando preciso ou quero, nada se me aflora ás ideias.
O engraçado é que nem me sinto mal nem me sinto bem, não estou infeliz nem eufórica, não estou triste, mas também não estou exuberante.
Estou.... vazia.
De certezinha que isto é das anestesias.
Acho que me adormeceram e se esqueceram de me acordar.
segunda-feira, 13 de maio de 2019
Mau Maria!
Então e não é que de repente e assim sem avisar, nem SMS, nem mail, nem telefonema, nada, chegou a época do biquini??
Então e como é que eu, depois de três meses a vegetar no sofá de perneta no ar, carregada de mimos em forma de gelados, chocolates, bolinhos e bolachas, vou caber no dito cujo ein?
É que nem que eu cosa a boca e divida uma folha de alface pelos sete dias da semana comendo-a com uma palhinha durante um mês a coisa vai lá de mole e balofa que estou.
Estou chateada pois estou que isto assim não vale, gaja que é gaja gosta de se apresentar sem papos nem peles, nem pança a sair do calção.
Para já, vou comprar um fato de banho tipo espartilho e depois só vou à praia lá para outubro depois de ter voltado ao ginásio e a pedalar e estar rija e fresca que nem um talo de couve.
Fui.
Fui ver a praia de longe sim, de perna atada e vestida...
Então e como é que eu, depois de três meses a vegetar no sofá de perneta no ar, carregada de mimos em forma de gelados, chocolates, bolinhos e bolachas, vou caber no dito cujo ein?
É que nem que eu cosa a boca e divida uma folha de alface pelos sete dias da semana comendo-a com uma palhinha durante um mês a coisa vai lá de mole e balofa que estou.
Estou chateada pois estou que isto assim não vale, gaja que é gaja gosta de se apresentar sem papos nem peles, nem pança a sair do calção.
Para já, vou comprar um fato de banho tipo espartilho e depois só vou à praia lá para outubro depois de ter voltado ao ginásio e a pedalar e estar rija e fresca que nem um talo de couve.
Fui.
Fui ver a praia de longe sim, de perna atada e vestida...
Não vai ser fácil....
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Já fui e já voltei
E mais uma anestesia geral na tola e um parafuso a menos cá estou eu.
Quinze longos dias mais sem praticamente me mexer, duche de saco plástico no pé, penso de três em três dias, papo para o ar de novo, portanto.
Depois, tirar os pontos e e fazer fisioterapia à bruta.
Graças à Deus né?
Ou vai ou racha.
Quinze longos dias mais sem praticamente me mexer, duche de saco plástico no pé, penso de três em três dias, papo para o ar de novo, portanto.
Depois, tirar os pontos e e fazer fisioterapia à bruta.
Graças à Deus né?
Ou vai ou racha.
Antes da faca já prontinho
Depois da faca todo f@dido
terça-feira, 7 de maio de 2019
A casa dos pássaros
Veio de longe e apaixonei-me por ela assim que a vi. Tinha de a trazer. Muito bem aconchegadinha dentro da mala, lá veio ela.
Alguns anos volvidos noutro lugar, finalmente coloquei-a onde deveria ter sempre estado, junto à buganvília bem perto da minha árvore gigante que alberga muita passarada durante a noite e de dia e até alguns ninhos.
Embora pequena para o melro e sua família, quem sabe se servirá para outras que se atrevam a ir investigar. Venha o sol para eu retomar a minha observação. Um olho no livro, o outro da casinha para a árvore e da árvore para a casinha.
Até já.
Alguns anos volvidos noutro lugar, finalmente coloquei-a onde deveria ter sempre estado, junto à buganvília bem perto da minha árvore gigante que alberga muita passarada durante a noite e de dia e até alguns ninhos.
Embora pequena para o melro e sua família, quem sabe se servirá para outras que se atrevam a ir investigar. Venha o sol para eu retomar a minha observação. Um olho no livro, o outro da casinha para a árvore e da árvore para a casinha.
Até já.
sábado, 4 de maio de 2019
Spot
O dos dias em que está sol.
Isto, claro, além de beber gasolina e acelerar. Eu e as minhas muletas e a minha perneta, estamos sempre a acelerar sem sair do lugar
Estou praticamente capaz de matar o que quer que seja. Tirem-me daqui...
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Apanhei-os!
O meu quadrado de céu tem-se apresentado lindo e de um azul intenso nos últimos dias. Eu e meu Zé, o gato, eu ainda imobilizada e à espera de um certo chamamento para continuar a recuperação, ele gordo que nem um texugo e por isso custa-lhe trepar árvores, ali estamos nós, confinados ao nosso quadrado, passando parte das tardes a ler ao sol.
A ler é como quem diz, eu cá, leio só com um olho, o Zé dormita apenas com um olho igualmente, pois estamos ambos obcecados pela árvore grande e pelos pássaros que vivem nela. Passamos horas a perscrutar a folhagem à procura de passarada.
Foi quando reparei que os melros se habituaram a nós. O casal de pássaros vai e vem vezes sem conta, à vez, trazer comida com bastante confiança mesmo sabendo da nossa presença. Consegui apanhá-los numa verdadeira sessão fotográfica.
Não sei muito sobre melros mas aguardo ansiosamente ver os pequenitos a dar os primeiros voos.
sábado, 27 de abril de 2019
Cada vez mais
Aprecio a minha própria companhia e o meu silêncio.
Talvez porque esteja numa fase de contrariedade e numa situação que foge aos meus planos e ao meu controlo e eu me encontre irritada e aborrecida o que faz com que não queira ver pessoas, muito menos ouvi-las. Por outro lado, talvez seja bom reencontrar-me e finalmente apreciar-me e estar de bem comigo. Já não corro, já não fujo, já não me escondo da solidão. Aprecio-a agora.
Deitei-me na espreguiçadeira do jardim ao sol, tirei as meias, arregacei as calças e olhei o céu. O meu céu. O meu quadrado de céu. O sol aquece-me as pernas, Zé, o gato, aproxima-se e rebola ao meu lado, ouço um galo ao fundo, um cão a ladrar. A folhagem das plantas murmura ao sabor do vento e há chilreios por todo o lado.
Tão bom! Que paz. Por que não sei eu aproveitar isto sem ser a pedalar...
Pego no livro para ler mas pelo canto do olho observo um melro a saltitar nos telhados à minha frente, traz uma minhoca no bico. Embrenha-se na planta gigante do meu pátio que entretanto se transformou numa árvore e pelo piar concluo que foi alimentar os filhotes no ninho. Fez mais três viagens mas nunca consegui captá-lo com a minha objetiva, pois sabe da minha presença e é muito rápido. Quantos ninhos albergará aquela árvore? Quantos pássaros lá viverão? Quanta vida há, ali mesmo no meu quintal....
Admira-me a passividade do meu gato Zé a olhar os passaritos pelo canto do olho. Acho que se habituaram a conviver uns com os outros.
Tal como eu. Acho que aprendi a conviver comigo. Finalmente.
Talvez porque esteja numa fase de contrariedade e numa situação que foge aos meus planos e ao meu controlo e eu me encontre irritada e aborrecida o que faz com que não queira ver pessoas, muito menos ouvi-las. Por outro lado, talvez seja bom reencontrar-me e finalmente apreciar-me e estar de bem comigo. Já não corro, já não fujo, já não me escondo da solidão. Aprecio-a agora.
Deitei-me na espreguiçadeira do jardim ao sol, tirei as meias, arregacei as calças e olhei o céu. O meu céu. O meu quadrado de céu. O sol aquece-me as pernas, Zé, o gato, aproxima-se e rebola ao meu lado, ouço um galo ao fundo, um cão a ladrar. A folhagem das plantas murmura ao sabor do vento e há chilreios por todo o lado.
Tão bom! Que paz. Por que não sei eu aproveitar isto sem ser a pedalar...
Pego no livro para ler mas pelo canto do olho observo um melro a saltitar nos telhados à minha frente, traz uma minhoca no bico. Embrenha-se na planta gigante do meu pátio que entretanto se transformou numa árvore e pelo piar concluo que foi alimentar os filhotes no ninho. Fez mais três viagens mas nunca consegui captá-lo com a minha objetiva, pois sabe da minha presença e é muito rápido. Quantos ninhos albergará aquela árvore? Quantos pássaros lá viverão? Quanta vida há, ali mesmo no meu quintal....
Admira-me a passividade do meu gato Zé a olhar os passaritos pelo canto do olho. Acho que se habituaram a conviver uns com os outros.
Tal como eu. Acho que aprendi a conviver comigo. Finalmente.
terça-feira, 23 de abril de 2019
Orelhas!
As do Dumbo.
Era o que eu queria mesmo ter agora para poder voar para fora da minha jaula e poder ver o mundo e as pessoas e tudo e tudo.
Sim, eu neste momento cinjo-me a leitora e não escritora ou faladora para não maçar ninguém com as trombas que sinto que tenho, qual leão selvagem enjaulado e ansioso, aguardando uma tal de SMS ou um tal de um telefonema do hospital com ordem de remoção de um certo e estúpido parafuso que me impede os movimentos e a recuperação e o regresso à vida.
Alguém tem por aí umas orelhas grandes? É que se eu tivesse umas dessas orelhas nem precisava das pernas nem das muletas, passava por vós a voar e a acenar feliz da vida. Até mandava beijinhos e soltava balões e pombas brancas.
Como é que é possível que haja gente que inventa doenças para ficar de baixa eternamente e não fazer nenhum, como é possível alguém desejar ficar simplesmente a vegetar....
Era o que eu queria mesmo ter agora para poder voar para fora da minha jaula e poder ver o mundo e as pessoas e tudo e tudo.
Sim, eu neste momento cinjo-me a leitora e não escritora ou faladora para não maçar ninguém com as trombas que sinto que tenho, qual leão selvagem enjaulado e ansioso, aguardando uma tal de SMS ou um tal de um telefonema do hospital com ordem de remoção de um certo e estúpido parafuso que me impede os movimentos e a recuperação e o regresso à vida.
Alguém tem por aí umas orelhas grandes? É que se eu tivesse umas dessas orelhas nem precisava das pernas nem das muletas, passava por vós a voar e a acenar feliz da vida. Até mandava beijinhos e soltava balões e pombas brancas.
Como é que é possível que haja gente que inventa doenças para ficar de baixa eternamente e não fazer nenhum, como é possível alguém desejar ficar simplesmente a vegetar....
quinta-feira, 18 de abril de 2019
quarta-feira, 17 de abril de 2019
Há coisas curiosas
Uma pessoa cai ou tem um acidente ou fica doente ou o que for, fica hospitalizada, faz cirurgia, fica acamada ou o que for, mas encontra-se imobilizada e lixada em casa, desertinha para ir trabalhar, mas não pode. No entanto, passa horas esquecidas no hospital para consultas e exames, passa horas no centro de saúde a fazer pensos e a pedir credenciais e baixas, passa horas em fisioterapias, sempre, sempre, com alguém que tem de faltar ao seu próprio trabalho porque neste caso o acidentado não tem como se deslocar e também, está de baixa há imensas semanas mas ainda não recebeu ponta de um corno e poderá ter, ou até poderá não ter (há muita gente que não tem) como pagar a um taxista horas e horas para andar consigo em tantas andanças.
E depois, no meio disto tudo, tem de se apresentar na junta médica, onde passa mais uma série de horas, supostamente para exames e verificações médicas, mas onde quem faz as verificações não é médico nem coisa nenhuma, ou pelo menos não se identifica como tal, mas vai decidir se a pessoa terá ou não justificação para estar de baixa ou se a baixa é ou não fraudulenta....
Há coisas mesmo curiosas.
E depois, no meio disto tudo, tem de se apresentar na junta médica, onde passa mais uma série de horas, supostamente para exames e verificações médicas, mas onde quem faz as verificações não é médico nem coisa nenhuma, ou pelo menos não se identifica como tal, mas vai decidir se a pessoa terá ou não justificação para estar de baixa ou se a baixa é ou não fraudulenta....
Há coisas mesmo curiosas.
quinta-feira, 11 de abril de 2019
Liberdade
Estranhei.
Depois entranhei.
A minha mobilidade continua limitada, a minha vida continua parada (entre aspas), mas eu não fiquei a chorar e a lamentar-me e a achar que sou uma desgraçada e que só a mim me acontecem desgraças. Não. Nunca derramei uma lágrima, pelo contrário, dez minutos após saber da minha desgraça, estava conformada, queixo levantado, sorria para as enfermeiras e estava munida de uma enorme dose de paciência, pronta para o que viesse.
A caminho do bloco operatório imaginei-me numa gincana de macas conduzidas por enfermeiros tresloucados e de cabelos em pé e fui sempre a rir-me e a conversar com o meu condutor.
Uma vez lá chegada, estava super descontraída.
Afinal, não é cada episódio da nossa vida uma passagem para outra margem?
Estou na sétima semana "de molho" e vejo já luz ao fundo do túnel. Além disso estou contente.
Contente, porque arrumei e organizei tudo quanto é gaveta cá em casa, ok que demorei meio dia com cada uma, mas estava a fazer algo e o que não consegui fazer, anotei para fazer depois. Tenho uma página A4 de ideias para concretizar assim que tenha mobilidade. Aprendi a fazer listas de compras online num abrir e fechar de olhos, tão cómodo que é, vou continuar a utilizar o sistema. Aprendi a estender roupa e a engomar sentada, aprendi a cozinhar aos saltinhos de pé coxinho, aprendi a transportar pequenas coisas penduradas nas muletas ou ao pescoço. Aprendi a tomar banho sentada num banquinho e com um saco enfiado na perna. Entro e saio do duche de muletas. Um luxo ein?
Só visto!
O meu companheiro de luta é o meu anjo da guarda. Muitos me ajudam e me mimam e eu sou uma sortuda. Não podia ter melhor família e melhores amigos.
Eu li livros, eu vi várias séries, trabalhei remotamente dia sim dia não e descansei os meus dois neurónios, embora destes dois que me restam, estejam também a ficar queimados.
Agora digam-me lá, parada a minha vida?
É claro que sinto falta do meu trabalho, dos meus colegas, de conduzir, de poder dar-me na real gana e ir às compras. Tenho saudades de vestir roupa normal, de me arranjar, de me calçar. Tenho saudades de pedalar.
Tenho saudades de liberdade.
Depois entranhei.
A minha mobilidade continua limitada, a minha vida continua parada (entre aspas), mas eu não fiquei a chorar e a lamentar-me e a achar que sou uma desgraçada e que só a mim me acontecem desgraças. Não. Nunca derramei uma lágrima, pelo contrário, dez minutos após saber da minha desgraça, estava conformada, queixo levantado, sorria para as enfermeiras e estava munida de uma enorme dose de paciência, pronta para o que viesse.
A caminho do bloco operatório imaginei-me numa gincana de macas conduzidas por enfermeiros tresloucados e de cabelos em pé e fui sempre a rir-me e a conversar com o meu condutor.
Uma vez lá chegada, estava super descontraída.
Afinal, não é cada episódio da nossa vida uma passagem para outra margem?
Estou na sétima semana "de molho" e vejo já luz ao fundo do túnel. Além disso estou contente.
Contente, porque arrumei e organizei tudo quanto é gaveta cá em casa, ok que demorei meio dia com cada uma, mas estava a fazer algo e o que não consegui fazer, anotei para fazer depois. Tenho uma página A4 de ideias para concretizar assim que tenha mobilidade. Aprendi a fazer listas de compras online num abrir e fechar de olhos, tão cómodo que é, vou continuar a utilizar o sistema. Aprendi a estender roupa e a engomar sentada, aprendi a cozinhar aos saltinhos de pé coxinho, aprendi a transportar pequenas coisas penduradas nas muletas ou ao pescoço. Aprendi a tomar banho sentada num banquinho e com um saco enfiado na perna. Entro e saio do duche de muletas. Um luxo ein?
Só visto!
O meu companheiro de luta é o meu anjo da guarda. Muitos me ajudam e me mimam e eu sou uma sortuda. Não podia ter melhor família e melhores amigos.
Eu li livros, eu vi várias séries, trabalhei remotamente dia sim dia não e descansei os meus dois neurónios, embora destes dois que me restam, estejam também a ficar queimados.
Agora digam-me lá, parada a minha vida?
É claro que sinto falta do meu trabalho, dos meus colegas, de conduzir, de poder dar-me na real gana e ir às compras. Tenho saudades de vestir roupa normal, de me arranjar, de me calçar. Tenho saudades de pedalar.
Tenho saudades de liberdade.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Nova etapa
Yeah!
Que alegria, o gesso já lá vai no entanto, recomeçar a andar, só daqui a duas ou três semanas após remoção de um dos parafusos.
Isto vai, devagar mas vai.
Ó se vai :)
domingo, 7 de abril de 2019
Sem título
Estava aqui a coçar a minha perneta desenfreadamente por dentro do gesso com uma agulha de tricot, quase mesmo até fazer sangue que vocês não imaginam a coceira que isto dá, quando me ocorreu a pergunta que a psicóloga de uma amiga lhe fez na primeira consulta pós cancro da mama:
"O que é que te aconteceu para chamares o cancro à tua vida?"
Pois.... que raio de pergunta para se fazer, que raio de abordagem, que raio será aquilo de chamar desgraças para a nossa vida? O que pensar, o que responder?
Será mesmo que chamamos inconscientemente acontecimentos para as nossas vidas para resolver questões para as quais não temos resolução? Será???
Bom, que eu andava cansada, desmotivada, exausta mesmo, a nível psicológico, andava, que achava que precisava de uma pausa no trabalho, achava, que deveria repensar os meus azimutes e mais uma série de coisas, deveria e que desejava ardentemente que algo se altera-se e que tivesse tempo para fazer certas coisas, desejava.
Agora, será que necessitava mesmo de partir um tornozelo para ficar imóvel em casa já lá vão seis longas semanas para concluir que no final de contas tenho saudades do meu trabalho e do stress e das intrigas dos colegas e da confusão do departamento e de cozinhar e engomar para a família e das resmunguices deles e de tantos contratempos a todos os níveis e desta tristeza esquisita e de não ter tempo para nada? Será que precisava de ficar sem palavras e com a alma doente de tão vazia' Será que precisava de ficar com a vida em suspenso E de saber quem me quer bem e para quem sou importante?
Quer-me cá parecer que sim...
Agora já chega, já cá tenho a minha lição.
Amanhã é um dia importante na minha vidinha de perneta e o meu nome do meio é esperança, não é, mas é :)
Até amanhã.
"O que é que te aconteceu para chamares o cancro à tua vida?"
Pois.... que raio de pergunta para se fazer, que raio de abordagem, que raio será aquilo de chamar desgraças para a nossa vida? O que pensar, o que responder?
Será mesmo que chamamos inconscientemente acontecimentos para as nossas vidas para resolver questões para as quais não temos resolução? Será???
Bom, que eu andava cansada, desmotivada, exausta mesmo, a nível psicológico, andava, que achava que precisava de uma pausa no trabalho, achava, que deveria repensar os meus azimutes e mais uma série de coisas, deveria e que desejava ardentemente que algo se altera-se e que tivesse tempo para fazer certas coisas, desejava.
Agora, será que necessitava mesmo de partir um tornozelo para ficar imóvel em casa já lá vão seis longas semanas para concluir que no final de contas tenho saudades do meu trabalho e do stress e das intrigas dos colegas e da confusão do departamento e de cozinhar e engomar para a família e das resmunguices deles e de tantos contratempos a todos os níveis e desta tristeza esquisita e de não ter tempo para nada? Será que precisava de ficar sem palavras e com a alma doente de tão vazia' Será que precisava de ficar com a vida em suspenso E de saber quem me quer bem e para quem sou importante?
Quer-me cá parecer que sim...
Agora já chega, já cá tenho a minha lição.
Amanhã é um dia importante na minha vidinha de perneta e o meu nome do meio é esperança, não é, mas é :)
Até amanhã.
domingo, 24 de março de 2019
O outro lado
Da vida.
Dos dias.
Dos meus dias neste momento.
Quão estranho é estar confinada a casa sem poder fazer o que me der na real gana.
Quão estranho é estar parada no tempo, ter a vida em stand by.
Hoje ralharam comigo quando me lamentei por não poder pedalar nestes dias maravilhosos de sol e por não poder fazer praticamente nada do que gostaria. Se esta é a realidade do momento, é esta que temos de viver. E aproveitar. Logo outras realidades virão, só temos de ir saboreando aquilo que vamos tendo. Certo? Certo!
Ontem levaram-me a ver a praia e o mar. Levaram-me a jantar. Hoje levaram-me ao Talhão 60/61 do Pinhal de Leiria onde aconteceu mais uma atividade de reflorestação da área ardida. Pude sentir o calor do sol e a brisa a fazer-me esvoaçar os cabelos, pude respirar fundo e encher-me de energia. Pude exercitar os braços a fazer andar as minhas quatro pernas. Há pois é, vou ficar massuda dos biceps. Estragam-me com mimos é o que é e felicidade é o que sinto.
Estou rodeada de pessoas que se preocupam em fazer-me feliz.
Só tenho de estar à altura do momento.
Dos dias.
Dos meus dias neste momento.
Quão estranho é estar confinada a casa sem poder fazer o que me der na real gana.
Quão estranho é estar parada no tempo, ter a vida em stand by.
Hoje ralharam comigo quando me lamentei por não poder pedalar nestes dias maravilhosos de sol e por não poder fazer praticamente nada do que gostaria. Se esta é a realidade do momento, é esta que temos de viver. E aproveitar. Logo outras realidades virão, só temos de ir saboreando aquilo que vamos tendo. Certo? Certo!
Ontem levaram-me a ver a praia e o mar. Levaram-me a jantar. Hoje levaram-me ao Talhão 60/61 do Pinhal de Leiria onde aconteceu mais uma atividade de reflorestação da área ardida. Pude sentir o calor do sol e a brisa a fazer-me esvoaçar os cabelos, pude respirar fundo e encher-me de energia. Pude exercitar os braços a fazer andar as minhas quatro pernas. Há pois é, vou ficar massuda dos biceps. Estragam-me com mimos é o que é e felicidade é o que sinto.
Estou rodeada de pessoas que se preocupam em fazer-me feliz.
Só tenho de estar à altura do momento.
quinta-feira, 14 de março de 2019
E enquanto a vida acontece lá fora
Que eu bem a vejo da minha janela, aqui estou eu, em repouso e de perna no ar.
Perna no ar no sofá, perna no ar na cama, perna no ar nas consultas do hospital, perna no ar no pátio, a apanhar sol...
Perna no ar no sofá, perna no ar na cama, perna no ar nas consultas do hospital, perna no ar no pátio, a apanhar sol...
quinta-feira, 7 de março de 2019
Fogo cruzado
Nas cinco noites que passei no hospital, perneta, senti-me como se de uma trincheira se trata-se.
Se na primeira noite não passei do corredor, o que até veio a revelar-se de valor pois tinha todo um enorme espaço para respirar e muita ação para me distrair, a partir daí, passei para uma enfermaria com três camas, o que também, de início, me agradou bastante. Fiquei na cama do meio, entre duas velhinhas acamadas, frente à tv, tudo muito calminho, tudo muito arrumadinho.
As velhinhas eram umas queridas.
Depois dos banhos, pequeno-almoço e medicação, instalei-me e relaxei.
Foi quando começou a guerra.
Parece que caí de para quedas num autêntico fogo cruzado.
Uma velhinha ressonava de um lado, a outra respondia do outro. Uma engasgava-se, a outra quase cuspia a dentadura. E eu ali no meio.
Eis que começo a ouvir tiros espaçados de um lado. Do outro responde uma rajada de metralhadora.
E eu ali no meio.
Aquilo eram morteiros, tiros de espingarda, carabinas. Juro que até houve disparos de kalashnikovs, rifles e outra maquinaria pesada. Algumas, estou certa, deitavam molho no final.
E eu ali no meio. Pedi para ser aberta uma greta da janela para renovar o ar, uma delas constipou-se. Ficou rouca mas não perdeu o piu e o tiroteio e a ressonância continuaram por quatro dias.
E eu ali no meio, na trincheira a levantar bandeira branca sem ninguém me dar confiança.
Quando tive alta e respirei ar puro, juro que até tive tonturas...
Vai uma p'ssoa para o hospital para se curar e sai de lá toda amarela e esburacada de tantos tiros.
Se na primeira noite não passei do corredor, o que até veio a revelar-se de valor pois tinha todo um enorme espaço para respirar e muita ação para me distrair, a partir daí, passei para uma enfermaria com três camas, o que também, de início, me agradou bastante. Fiquei na cama do meio, entre duas velhinhas acamadas, frente à tv, tudo muito calminho, tudo muito arrumadinho.
As velhinhas eram umas queridas.
Depois dos banhos, pequeno-almoço e medicação, instalei-me e relaxei.
Foi quando começou a guerra.
Parece que caí de para quedas num autêntico fogo cruzado.
Uma velhinha ressonava de um lado, a outra respondia do outro. Uma engasgava-se, a outra quase cuspia a dentadura. E eu ali no meio.
Eis que começo a ouvir tiros espaçados de um lado. Do outro responde uma rajada de metralhadora.
E eu ali no meio.
Aquilo eram morteiros, tiros de espingarda, carabinas. Juro que até houve disparos de kalashnikovs, rifles e outra maquinaria pesada. Algumas, estou certa, deitavam molho no final.
E eu ali no meio. Pedi para ser aberta uma greta da janela para renovar o ar, uma delas constipou-se. Ficou rouca mas não perdeu o piu e o tiroteio e a ressonância continuaram por quatro dias.
E eu ali no meio, na trincheira a levantar bandeira branca sem ninguém me dar confiança.
Quando tive alta e respirei ar puro, juro que até tive tonturas...
Vai uma p'ssoa para o hospital para se curar e sai de lá toda amarela e esburacada de tantos tiros.
terça-feira, 5 de março de 2019
Vida de perneta
Estou perneta já lá vão dez dias.
Fui finalmente operada na quinta feira e na sexta já vim para casa.
Mas, para quem não sabe, eu sofro de bichos carpinteiros e sábado já me sentia tão bem que fui ao jantar de carnaval do meu grupo do costume. No domingo, com a ajuda das minhas duas pernas auxiliares passeei pelo quintal, pedi para me levarem a ver o mar e fui lanchar a casa de uns amigos.
Pois. Sou doida, eu sei.
Na segunda, quando fui fazer o penso o meu pé assemelhava-se a um peixe balão sem boca e fui avisada para estar sogadita e com o pé no ar, gelo e mais gelo ou estragava tudo.
Convenci-me então que tenho todo o tempo do mundo e que pese embora tudo e mais alguma coisa, o tempo é o que fazemos dele, o que me dá forte nos nervos mas tem de ser.
É que eu tinha a mania que não tinha tempo. E quem acha que não tem tempo, vive a mil e eu vivo e gosto de viver a mil.
Eu sei, sou teimosa que nem uma mula, ainda por cima, uma mula sem parança.
Mas se eu quero porque quero ficar boa o mais breve possível para poder voltar a viver a mil e pedalar, pedalar, pedalar, que eu preciso voltar a pedalar, tenho de me resignar à minha simples vidinha de perneta em recuperação.
Aceito o pequeno almoço na cama, tomo banho sentada, venha tudo quanto é mimo que eu quero (vou ficar uma Mureia, metade mulher, metade baleia).
Resumidamente tenho de passar os dias de papo para o ar no sofá.
Já marchou o livro que estava a meio há semanas, o resto da série da Casa de Papel e toda a do Narcos. A fila de espera é imensa. Ai mas ai que tenho tanto que fazer. Tantos livros, tantas séries, tantos blogues para ler, tantos mails do trabalho para ver e até quem sabe trabalhar à distância.
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