Mostrar mensagens com a etiqueta Das vidas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Das vidas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Riquezas


Lá, no sítio onde deixamos os nossos idosos porque não temos condições de cuidar deles, a vida é triste e solitária e nós vemos e ouvimos de tudo.
Diz a D. Teresa, sentada na sua cadeira de rodas com a mantinha por cima das pernas que a vida lhe foi madrasta. 
Seu homem trouxe-lhe muita dor e tristeza, muita solidão, mas deu-lhe um filho bom. 
Feitas as contas, valeu a pena….

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Ana



Ana sempre teve umas mãos de fada. Tudo em que tocava se transformava em algo bonito. 
Os cadernos mais limpos e organizados eram os dela, encapados e decorados com perícia, as bonecas, eram as que tinham os vestidos mais bonitos, todos feitos por ela, os desenhos, os mais bem pintados, sem um único borrão. Um esmero aquela miúda.
Já na altura, nas férias de verão, na menina Arlete, para onde todos os miúdos ali da zona iam algumas semanas, a Ana, todos os dias tinha ideias novas para brincar, sempre com coisas feitas com as mãos que as outras miúdas copiavam logo em seguida. Até rendas e malhas ela sabia fazer, tão novinha, mas tão portentosa. 
Ana era dona de um sorriso lindíssimo, fazia umas covinhas de lado, nas bochechas e embora pequenita e rechonchudinha, nunca passava despercebida. Minha mãe estava sempre a falar-me dela como exemplo, mas eu, nunca passei de uma pequena magricela e nunca quis nada com rendas e malhas. Uma desilusão para ela, enfim.
Anos mais tarde acabei por lhe perder o rasto, mas sempre que passava em frente à sua casa, antes dela se mudar para longe e ao ver as cortininhas de renda, as andorinhas de louça na parede, os vasos pintados com plantas viçosas às cores, tudo muito bonito e cuidado com esmero, imaginava a Ana a fazer bonecas de trapo e malha.
Descobri-a há pouco no Instagram e tenho de vos mostrar….







sexta-feira, 1 de março de 2019

E assim se gasta meia vida

Fui de bicicleta à bênção dos ciclistas a Fátima. 
Em chegada lá, não coloquei a puta da  vela a arder porque a fila tinha mais de um quilómetro, não assisti à missa pois havia dezenas de ciclistas e não se ouvia nada. 
Fui almoçar uma sandocha de leitão, portanto.
Antes tivesse esperado e antes tivesse ficado. Ou nem sequer devesse ter ido. Sei lá eu. 
O que eu sei é que na volta vinha a descer um estradão a cento e duzentos à hora e aparece-me uma curva fechada que não consegui fazer. O instinto deu-me para travar. Mal feito! A roda da frente esbarrou e eu esbardalhei-me feio. 
Esfarrapei todo o lado direito nas pedras e fiquei aflita de um pé. Respirei fundo, bebi água, descansei, endireitei-me, ajeitei o orgulho ferido e mais o pé e aí vou eu. Doía-me horrores mas dava para pedalar. Pedalei mais vinte quilómetros até não poder mais pelo que foram levar-me a casa. 
De casa ao hospital, tornozelo partido, tíbia rachada perna acima. Rica coisa fui arranjar.
Cinco dias de internamento, cirurgia e três parafusos no pé depois, aqui estou eu... já em casa, perneta, de férias forçadas e cheia de mimo. Trabalhar e pedalar só daqui a uns meses...


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Se tem cara de benuron

Perguntou a minha amiga a alguém que desfiava um Rosário de doenças há mais de meia hora.

O que eu me ri

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A vida maravilhosa de Jacinta

A sua formação em Engenharia Mecânica, a sua inteligência e profissionalismo, a sua boa disposição e a sua beleza fizeram com que tivesse muitos amigos, um bom emprego, que pudesse viajar para locais exóticos, comprar roupas de marca, viver na zona cara da cidade. A sua vida era maravilhosa e ela escrevia com eloquência e paixão, retratando os seus momentos felizes. O seu blog era um sucesso. As fotos das festas, dos lugares fantásticos onde ia, do seu aspeto impecável tornaram o seu instagram um sucesso também. Era uma vida das revistas, uma vida de sucesso e felicidade. Cansou-se, no entanto, de manipular imagens e palavras, chegou um momento em que o que ela queria mesmo era falar da sua solidão, do emprego precário de onde nunca tinha conseguido sair, das roupas que nunca teve, da tristeza que sentia. Apagou tudo e criou um novo blog, um novo instagram.

Na realidade Jacinta até era parecido com Joaquina e ali ela podia ser o que quisesse. Agora para variar seria uma jovem desesperada por uns tempos. Depois, logo se veria…

terça-feira, 6 de junho de 2017

Será que é só nos filmes?

Assim que chega a casa, suspira, descontrai e aos poucos vai tirando a máscara. Os sapatos de salto, a roupa certinha e apresentável, tira as pulseiras e os brincos, prende o cabelo. Veste uma roupa larga e confortável, amarrotada de ter sido atirada à pressa para o roupeiro no dia anterior, uma t-shirt velha, umas calças mais que usadas, mas o que importa isso, afinal é para andar em casa, na intimidade do lar, sem máscaras, sem maquilhagem que disfarça as gelhas do dia e encobre os olhos cansados, sem um penteado que disfarça o cinzento da alma,  sem o sorriso número sete que esconde as contrariedades. Sabe tão bem poder estar finalmente na pele que tão bem se ajusta a si. Tira a loiça da máquina, põe roupa a lavar, faz o jantar, dobra cuecas e meias, trata dos filhos, faz o jantar, arruma a cozinha. Uf! Um banho, um pijama fofinho, um pouco de creme nas mãos. Exausta, descansa... Caramba. Nos filmes e nas revistas e nas séries, as mulheres estão em casa, bonitas e apresentáveis, de batom nos lábios, penteadas, calçadas, engraçadas, sem nada para fazer que não seja mimar maridos e filhos, ler, conversar, ouvir música, pintar, escrever e rir muito... Será que é só nos filmes?