Manhã cedo não se via ainda vivalma. Vislumbrava-se apenas o branco dos cristais de geada pelos campos que o sol transformava em névoa e evaporava assim que lhes tocava com os seus raios de calor. Atravessámos os campos e determinados fizemo-nos à serra com o intuito de a atravessar e chegar às Salinas de Rio Maior. O céu estava limpo e deixava ver a imensidão à nossa volta. Quão pequena eu me sinto no meio da serra, mas quão grande eu me sinto cá por dentro ao embrenhar-me nela, nos seus caminhos, nas suas pedras, nos seus contornos. Não é fácil pedalar pela serra, muito menos chegar ao seu topo, talvez por isso eu acabe por me sentir grande quando lá chego. Muitas peripécias depois a viagem acabou seis quilómetros antes do destino com o meu pneu traseiro todo cortado das pedras da descida. Tive de desmontar e virei à esquerda, o resto do grupo seguiu em frente e eu acabei por me perder deles. Os telefones não tinham rede... Quando pararam para reunir o grupo deram pela minha falta e voltaram para trás, o eco da serra fez o resto para o reencontro e seguimos até à estrada. Chamada a assistência em viagem, vulgo, amigalhaça disponível, terminámos nas bifanas da Ti Cristina. Vamos ter de voltar às Salinas.
Mas mais do que o cansaço, mais do que as pernas moídas, mais do que os nervos por causa do pneu que não nos deixou terminar o desafio, a serra traz-me paz e reconciliação, a serra faz-me pensar mais claro e tomar decisões, a serra faz-me feliz, faz-me ser uma melhor pessoa. Pedalar faz-me feliz.