segunda-feira, 15 de março de 2021
10/2021
terça-feira, 2 de março de 2021
9/2021
A passar por estas bandas, bateu-me a saudade e entrei.
Pois ainda por cá ando a levar para a frente esta carcaça já
entradota, uns dias cheia de vitalidade e força para pensar o futuro, outros,
quieta e amadornada, à espera que isto passe.
Após e durante o radical despelamento barra poda de toda e
mais alguma coisa verde do meu jardim, deu-me para as corridas. Depois, não
tendo mais nada para cortar e achando que esta carcaça, mais tarde ou mais cedo
ia acabar por dar de si, virei-me para algo mais calmo e dediquei-me ao makeover da
despensa e às aulas de ginástica online. Sim, é que em chegando o verão e
podendo eu desfilar em espaços abertos, hão-de ver-me por aí, mais firme e hirta
que uma barra de ferro. Ah pois é! E nisto,
acabei por também eu, ver-me construir a minha cova no sofá da sala,
dedicando-me às leituras de grandes calhamaços, entrando e vivendo assim
histórias do camandro adentro.
Posto isto e não satisfeita que esta cabeça não para, tive
uma ideia brilhante. Na minha garagem ouve-se agora o marulhar das ondas na
areia e passaritos a chilrear enquanto eu me dedico a Yoga. Gente, descobri
todo um novo mundo de calmaria e equilíbrio entre
corpo, mente e emoções. Dos vinte
e um dias do programa para iniciantes que descobri no Youtube, vou no décimo
primeiro e continuo com vontade de fazer isto para o resto dos meus dias.
E nisto por cá ando.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
8/2021
Vejo agora com clareza a minha apetência para as tesouras. De
podar.
E fujam e escondam-nas todas por favor.
Está agora nu, despido de folhas e sem abrigos para os
pardais, o meu pequeno jardim. Após dias e dias de poda, muitas vezes inadvertidamente,
pois era apenas uma braça que me empatava a passagem, depois outra e mais outra
e todo um entusiasmo que se foi tornando um grande corte e uma verdadeira terapia
à minha pessoa. Já só me resta um vaso, que estou a guardar para o próximo fim
de semana para depenar e após o que terei de me reinventar mais uma vez.
Cortar, cortar, cortar, juntar, limpar, eliminar. O cheiro a
verde, as mãos na terra, a cara lavada do jardim e a paz e calmaria que a brisa
transmite ao abanar-me os cabelos e ao afagar-me a pele, deixa em mim um efeito
apaziguador. As braças cortadas e a despontar, os rebentos a nascerem e o verde
mais viçoso, fazem-me crer na esperança, no futuro e no renascimento.
Tenho cá para mim que mais um mês e já me posso perdoar por
ter deixado o jardim naquele estado. A primavera fará maravilhas certamente.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2021
7/2021
Sei lá, até parece que gosto de castigar o corpo e exercitar a mente por via da resiliência e do auto controlo ao sair para correr quilómetros e quilómetros pela cidade contra a ventania. E, em chegando a casa, não satisfeita, esta que aqui vos escreve, resolve saltar à corda e fazer uma aula de alta intensidade online para quase falecer de cansaço depois. Pese embora o quase falecimento e o entrevamento que sinto nesta altura, eu vi a rua e respirei liberdade. Ora, quando família chega a casa e se alapa no sofá para o descanso de final do dia, já eu subi e desci duzentas e doze vezes ao primeiro andar e me desloquei do local do telecoiso à cozinha e à sala e à garagem, ao pátio e á varanda outras tantas como quem anda á volta da jaula à procura de uma abertura para esticar as pernas, então, quando eles entram, a porta da jaula abre e eu raspo-me assim como quem não quer a coisa.
Esta que aqui vos escreve encontra-se neste momento literalmente colada ao sofá e nem sabe se vai conseguir subir as escadas para o quarto por via de não conseguir mexer as pernas. Sim, esta que aqui vos escreve, de tanto entusiasmo por sair da jaula, correu doze quilómetros feita tola. Está tudo bem, claro e o que mexe comigo não é estar fechada, é saber que não posso sair. De resto, está-se bem. Fiquem bem
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
6/2021
Eram cerca de três e meia da tarde quando batem ao portão. O
dia estava tristonho tal como tinha estado durante toda a semana e o vento uivava
lá fora. Notavam-se as suas fortes rajadas a entrar pelas friestas das janelas
e da porta e ouviam-se folhas a esvoaçar. Alba Maria, de volta das rendas nos
panos de cozinha, sentada no sofá, manta nas pernas e pantufas quentinhas, o
gato enroscado a seu lado, que o aconchego nestes dias é tudo, decidiu não ir
ver quem era e o que pretendia. Na certa seria mais um vendedor inoportuno e
ela não estaria interessada em contratos de energia ou telecomunicações, alterações de fornecedores ou o diabo a sete. Além disso, na televisão
dizem constantemente que os idosos têm de estar atentos pois são alvos fáceis.
Não ela, claro, que sabe topar essa gente a léguas, mas não, não lhe apetecia
ouvir conversa fiada. No entanto, a insistência ao portão que parecia dada à
urgência fez Alba Maria ficar em alerta. Ao fim de algum tempo decidiu
então pegar na bengala, levantar-se e vagarosamente dirigiu-se ao portão
tentando ver se percebia quem era espreitando pelas frinchas, não
conseguindo porém vislumbrar alguém. Abriu o portão, nada. Estranheza aquela, não por
ter demorado a abrir, mas de admiração pois tanta urgência e foram-se logo
embora. Caramba, levantou-se para nada, esta gente não se enxerga. Olhando então para baixo viu um embrulho que levantou com cuidado e abriu devagarinho. Lá dentro estava uma caixa com meia dúzia de ovos, três diospiros
e duas fatias de pão de ló ainda mornas….